Ernesto Rodrigues Interview

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vítor Rua - O que é para ti o "near silence"? Como caracterizas o estilo? Quando surge?


Ernesto Rodrigues – O “near silence” para mim é a resposta mais mais objectiva e contundente ao mundo desordenado, caótico e ruidoso em q vivemos. Digamos q faz o contraponto com a rudeza da realidade dos nossos dias. O estilo pode ser caracterizado pela percepção do silêncio ou seja, a consciencialização do mesmo, que que se traduz também na economia dos sons – reducionismo.
Este estilo surge em finais dos anos 90.


Vítor Rua - Que técnicas são idossincráticas desta tipologia musical?


ER – Esta redução tem um aspecto deveras curioso: embora se utilizem menos notas (e notas são todo e qualquer som), por outro lado os instrumentos são explorados integralmente, o que se traduz numa panóplia sonora muito mais rica e vasta. Logo, pode-se afirmar que sonicamente os instrumentos são cirurgicamente analisados o que se traduz nas chamadas “extended technics”. A tudo isto é necessario acrescentar um doseamento equilibrado entre som/ruído e silêncio.


Vítor Rua - Como se ensaia este tipo de música?


ER – Este tipo de musica ensaia-se com base nos perssupostos anteriormnte referidos: com um consciência “aberta”, desnudada de preconceitos e com uma concepção extremamente abrangente da importância do silêncio, ou seja, tendo em conta que todo e qualquer som envolvente pode fazer parte da composição (em tempo real).


Vítor Rua - Existe uma comunidade de músicos em portugal a praticar este tipo de música?


ER – Nos ultimos 10 anos, tenho tido a preocupação de veicular estas ideias a alguns músicos de Lisboa que penso poderem desempenhar esta funçao com “agilidade” e competência. Fundei o grupo SUSPENSÃO que integra 8 elementos e que está direccionado exclusivamente para esta corrente estética.


Vítor Rua - Foste o pioneiro a introduzir o near silence em Portugal?


ER – De facto antes de mim, não tenho notícia de que alguém o tenha feito (em Portugal) … mesmo a nível internacional penso que o meu cd “Self Eater and Drinker” (projecto iniciado em 1997), aponta já para muitas das soluções que coetaneamente podíamos observar nas práticas mais representativas desta estética, tais como as escolas de Viena, Londres, Tokio, Berlim, Boston, etc.


Vítor Rua - O que é o "silêncio" para ti?


ER – Para mim o silêncio faz parte integrante do Som. Penso que cada vez mais o Silêncio sera requisitado na acção composicional, seja ela música (improvisada ou escrita), pintura, poesia, cinema, etc.
Depois de John Cage, nunca mais o Silêncio foi encarado da mesma forma. Se nos debruçarmos sobre a pintuta barroca ou clássica, por exemplo, constatamos que toda a tela é cheia, não há espaços deixados em branco (falta respiração). Tal não se constata hoje em dia (nem isso seria possível). As pausas, os silêncios, os espaços, etc, são cada vez mais usados… assim como a aproximação a certas filosofias (zen por exemplo) que me parece estrarem na base de tudo isto…


Vítor Rua - Resume o concerto de ontem (instrumentação e nome dos músicos; quais os objectivos e intenções; técnicas utilizadas nos diferentes instrumentos).


ER – O concerto a que assististe foi um bom exemplo desta prática (na minha opinião). Sem hesitações (o que é extremamente perceptivel e desagradável quando acontecem), houve boa gestão dos materiais em comunhão com Silêncio o que transmite ao ouvinte sensação de relax e plenitude, o que lhe abre um espectro bastante mais lato nos dominios da acústica e psico-acustica.


Ernesto Rodrigues – violino, viola, objectos, metrónomos
Guilherme Rodrigues – violoncello, metrónomos
Nuno Torres – saxofone alto, metrónomos
Gil Gonçalves – tuba, metrónomos
Abdul Moimeme – guitarra(s) eléctrica(s), metrónomos
Carlos Santos – electrónica, metrónomos
Jose Oliveira – percussão, metrónomos

 

 

Lisboa, Dezembro 2009