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“Lautari”
designa, na terminologia dos ciganos da Roménia, “aquele
que improvisa”, o músico ambulante que aprende escutando
os mestres. É também a designação escolhida
por este trio de Lisboa, que escolheu, entre todas as formas musicais
disponíveis, aquela que, pelo menos em Portugal, se afigura como
a de maiores dificuldades, tanto em termos de prática como de aceitação
junto do grande público. Formado no ano de 1994, em Lisboa, o grupo
encontra-se neste momento na fase de procura de plataformas de trabalho
viáveis e que se coadunem com as respectivas personalidades, necessariamente
diferentes e, por vezes, contraditórias entre si. Num campo de
manobra cheio de minas e na mira de não poucos preconceitos auditivos,
os Lautari conseguiram para já assegurar a sua subsistência
como grupo, não abdicando das suas convicções a favor
de um impacte mais imediato no consumidor médio. Escolheram a improvisação,
“pelo risco” e “por uma necessidade de comunicação”,
como acontece com José Oliveira, que afirma “não ter
tempo, nem jeito, nem pachorra, para dizer alguma coisa enquanto na simples
posição de intérprete”. José Oliveira,
que, no passado, já tocou com o trompetista Sei Miguel e com Celso
de Carvalho, faz suas as palavras do percussionista inglês Roger
Turner, quando este diz que a música é “uma forma
de guerrilha”, embora faça questão de frisar que,
“já na música barroca, se incluía uma margem
significativa de improvisação”. A audição
de nomes como Evan Parker, Barry Guy, Paul Lytton, Paul Lovens, Derek
Bailey, representantes da free music inglesa dos anos 60 e 70, mas também
Archie Shepp, Ornette Coleman ou Eric Dolphy, foram determinantes na génese
da estética perfilhada pelos Lautari. “A persistência
em fazer este género de música”, diz Carlos Bechegas,
que, entre outros, já tocou com Carlos Zíngaro e numa das
derradeiras formações do Plexus, “deve-se a uma certa
impaciência de alguns músicos para se relacionarem com as
partituras”, a par da exigência de “uma criatividade
específica”, que dá para conseguir “uma certa
dinâmica de resultados, impossível de obter por outros meios”:
“Se se faz uma improvisação que a seguir é
escrita, mesmo se os “virtuosos” forem tocar aquilo –
que são as mesmas notas -, não resulta da mesma maneira
do ponto de vista dinâmico. Quando se improvisa, tem-se a sensação
de encontrar uma coisa pela primeira vez”. Uma opção
que acarreta uma enorme dose de responsabilidade e de entrega total à
música, já que a espontaneidade absoluta e a sintonia perfeita
entre os instrumentistas nem sempre acontecem quando se quer e nos locais
programados. Ernesto Rodrigues fala nos ensaios como “ateliers de
improvisação, ideais para desenvolver a linguagem colectiva
e os métodos de execução instrumentais do grupo.
Depois, no palco, o que é preciso é esquecer tudo isso e
entregar-se por inteiro à inspiração do momento.
Em nome de uma certa virgindade, como se cada nova apresentação
fosse sempre uma primeira vez”. “O que define, entre outras
coisas um bom improvisador”, conclui José Oliveira, “é
a sua capacidade de reacção, em tempo real, no instante,
e de forma adequada e criativa, aos estímulos que recebe de outrem.
E isto é uma forma de composição, composição
instantânea”. Fernando Magalhães
Os registos discográficos de Ernesto Rodrigues têm uma importância
superlativa pelo facto de juntar músicos da segunda de quatro gerações
de improvisadores portugueses, como são o próprio Ernesto
Rodrigues e José Oliveira. “Formados” pelo free-jazz,
estas duas figuras consagradas da nossa improvisação souberam
evoluir com os tempos e adaptar-se à realidade circundante. Deflagração
do fraseado convencional até este desaparecer, acomodamento do
ruído, estruturas “em suspensão” indirectamente
bebidas no minimalismo e directamente no jazz modal, apurado sentido colectivista,
integração engenhosa de silêncios, execuções
pausadas e baseadas na escuta, jogos entre serenidade e inquietação,
atonalismo, politonalismo: estão lá todos os ingredientes.
Rui Eduardo Paes
Ernesto Rodrigues’ music results of two of his personal passions:
free jazz and contemporary "classical" music with a specific
focusing on post-serialism. And it bursts out of a cause embraced in an
almost militant way: improvisation. This may assume various shapes and,
as such theorist of this family of the Art of Sounds as Derek Bailey once
stated, doesn't necessarily have to be experimental. In fact it actually
isn't in most occasions.
Such is not the case with this violinist who's also devoted to instruments
such as viola and soprano saxophone and is now developing skills on India's
Sarangi. His approach depicts each improvisation as an experiment, an
adventure ruled only by the casualty of circumstances and spontaneous
creativity. Add to this the way his musical studies, (classical) formation
and background and also his "audio memories" (Portuguese popular
music, rock, both areas of former activity) melt with his musical taste
and his aesthetic and expressive universes (which meet British and German
schools of "New Improvised Music") and you'll be closer to his
world.
Ernesto Rodrigues assumes all radicality inherent to this openness to
the "becoming" of improvised speech quite naturally, and leading
to an obvious consequence: His music is atonal, polytonal, microtonal,
and non-idiomatic. Little is any trace of free jazz and "chamberistic"
classicism is but a far away reference. Yet, such queues are present since
no breakthrough or innovation is obliged to cut off with all history(ies).
In fact, Ernesto Rodrigues still applies Cage's concepts as to the use
of noise and silence, which is a direct consequence of the acceptance
of the fact that neither of these are non-musical - an idea that still
to this day is not unruffled, decades after John Cage's formulation. All
of his production stands for this, from «IK*Zs(3)» with Carlos
Bechegas on flutes and electronics, to «Assemblage» a CD with
Manuel Mota on electric guitar.
Being aware that noise recycling is an attribute of electric and electronic
instruments, one has to acknowledge that Ernesto Rodrigues’ option
towards the principles of "noise" patent in such examples as
«Self Eater and Drinker» with Jorge Valente in the synthesiser
and computer, «Multiples» with Guilherme Rodrigues on cello,
«Sudden Music» with António Chaparreiro on electric
guitar, «23 Exposures» with Marco Franco on soprano saxophone
and «Ficta» (with excellent Argentinean pianist Gabriel Paiuk)
is most clear and obvious mostly on acoustic contexts. Interesting to
notice is that Ernesto Rodrigues "bruitage" (to which - it is
only fair to point out - percussionist José Oliveira contributes
the most) co-exists with vast "spacings" and a sound production
and progression at "near-silence" level, similar in some way
to what you can listen to in Radu Malfatti, or Rhodri Davies, Mark Wastell
and Burkhard Beins’ Sealed Knot. This is a Music shaped by
restlessness and intensity, but at the same time holding such a delicacy,
sense of detail and even mildness which read out as total paradox.
Paradox is also present in the way Ernesto Rodrigues articulates an intuitive
musical production - whose source is to be found only on the domain of
"praxis" - with unmissable conceptualism. «Self Eater
and Drinker»’s main idea is the autophagy of acoustic sounds
by electronics. «Multiples» is a work of almost miniatures,
inspired by Anton Webern, which understands every part as a metonymy of
the all, in such a way that each next improvisation is but another aspect
of what's already been enunciated. «Sudden Music» celebrates
the ephemeral character of music even when a static structure, which like
olds everything under suspension, is present. «23 Exposures»
plays with the idea of exposing film to light: Depending on the degree
of that exposure the revealed photo offers a greater or lesser image sharpness.
Extreme situations where all figuration becomes impossible is in fact
what this work is all about.
«Ficta» is an allusion to a time in history - baroque - where
improvising meant to embellish with ornaments. In fact, "Musica Ficta",
Fictional Music, in those days was but a way to invent, to create in a
complementing fashion, what wasn't set on the score. Music Improvisation
today is quite a different story, but still is - even to greater extent
since there is no score - an enhancer of imagination, and namely of new
ways to combine sounds and even of the making of entirely new sounds.
Rui Eduardo Paes
L’histoire de l’improvisation au Portugal rencontre chez Ernesto
Rodrigues et José Oliveira, deux de ses figures les plus consacrées,
apartenant tous les deux à la deuxième de quatre générations
de musiciens. Cela ne les a pas empéchés, ensemble avec
António Chaparreiro, guitarriste venu récemment du Rock,
d’adhérer aux nouvelles pratiques qui transforment actuellement
le scénario de ce que l’on appelle “free music”.
Longues durées, minimalisme dans la géstion du matériau
sonore, fréquente utilisation de l’espace et de la respiration,
focus en l’elaboration de textures, déconstructionisme, eclatement
du phrasé conventionnel, application de concepts venus du “noise”
à l’esthétique du “near silence”, adhésion
aux paramètres audio de l’eléctronique, bien que dans
une musique foncièrement acoustique: ce sont bien là les
caractéristiques de leur CD «Sudden Music», tout comme
de leur travail sur scène. Cette capacité d’adaptation
n’a rien d’étonnant quand on connait le travail de
ces deux défricheurs de contrées: Ernesto Rodrigues est
un violoniste/altoiste d’intérêts divers qui englobent
sa passion pour les compositeurs “classiques” contemporains
et le passage par plusieures formations de musique populaire, en particulier
sa colaboration avec les chanteurs-compositeurs Fausto et Jorge Palma;
José Oliveira, en plus de percussioniste avec une abordage des
instruments qui le place dans la lignée de Paul Lytton, Paul Lovens
ou Roger Turner, est aussi artiste plastique et poète, aux liaisons
étroites avec le mouvement Fluxus. Depuis toujours, furent leurs
objectifs, la permanente inovation et la diversification, et celles-ci,
precisemment, ont attiré António Chaparreiro, las des lieux-communs
du Rock, à ces domaines de la musique créative de nos jours.
Dans ses mains, l’énergie de ce genre d’expréssion
cesse de se presenter sous sa forme la plus évidente pour gagner
en subtilité et en opportunité. Ensemble, ils peuvent faire
en sorte qu’une tempête paraisse paisible. Rui
Eduardo Paes
Creative
Sources (www.geocities.com/creativesources_rec)
È l’etichetta che fa capo al violinista Ernesto Rodrigues,
al violoncellista Guilherme Rodrigues e al percussionista / chitarrista
José Oliveira, musicisti dediti ad un tipo d’improvvisazione
piuttosto classica, che potremmo definire alla AMM. Finora ha pubblicato
una decina di titoli, fra i quali ci sono dei lavori a cui partecipano
anche Manuel Mota e Margarida Garcia. L’etichetta si sta allargando
verso una produzione sempre meno legata ai nomi dei tre musicisti e sempre
più di tipo internazionale, come dimostra il recente “No
Furniture” del trio Boris Baltschun / Axel Dörner / Kai Fagaschinski.
Nel sito dell’etichetta è già annunciata una serie
interessante di prossime uscite - in una di esse c’è di nuovo
la partecipazione di Manuel Mota e in un’altra quella di Alessandro
Bosetti - fra cui anche un CD in solitudine del fisarmonicista Alfredo
Costa Monteiro. Etero Genio
A música livre de Ernesto Rodrigues é uma estrela no galático
movimento da nova música improvisada a qual surgiu em meados dos
anos 60; sucedâneo do free jazz, do experimentalismo e da obra aberta;
intuição do instante, constelação de compositores-intérpretes;
passarela de instrumentistas excepcionais, construtores do bizarro, virtuosos
do epigrama; emancipou-se como música/performarte, concebeu um
espaço autónomo e atípico da vertente solística
e/ou colectiva, com técnicas audaciosas e conceptualizações
esquisitas; no âmbito da criação portuguesa de hoje,
cadáver esquisito, a arte intimista do seu violino é um
discurso singular, uma formidável formulação da pós
modernidade. Jorge Lima Barreto
Um facto histórico respeitante à música improvisada
nacional, aconteceu na acolhedora sala da Associação Cultural
Abril em Maio (Lisboa). E se é difícil sobreviver ao exaltar
uma forma de expressão pouco acarinhada, mais aventurado se torna
conseguir reunir 12 músicos e formar uma Orquestra onde improvisação
e liberdade assumem o papel principal. Tendo em conta o exímio
trabalho que Ernesto Rodrigues tem desenvolvido ao longo destes anos,
acrescentando a concepção e condução deste
magnífico projecto. É chegada a hora de reconhecer a solidez,
não só enquanto músico, como também valorizar
a sua postura, que o torna uma "figura" fulcral da livre expressividade
nacional.
Predominada por elementos de sopro, esta Orquestra de Geometria Variável
apresentou-se em duas partes distintas. Apreciando e qualificando a primeira
parte de alto nível, todos os instrumentistas se apresentaram de
forma considerável detonando uma plena sintonia com o desígnio
deste projecto. Destacando o saxofone soprano de Marco Franco (possuidor
de um sopro forte e conciso) e a delicada sonoridade proveniente da guitarra
de António Chaparreiro, edificaram-se como essenciais suportes
para que Ernesto Rodrigues adoptasse uma postura mais solta para o necessário
trabalho de condução. Aguarda-se com expectativa a gravação
deste empreendimento bem como uma actuação para um público
mais abrangente. Ficamos à espera. Carlos
Lourenço
The violinist/violist Ernesto Rodrigues upsets the surface of silence
once again with a new cd in which free-improvisation is once again associated
to a concept: in this case, that of assemblage/assembly, the construction
is made up of varied elements in which unity results precisely from diversity.
A condition which does not alter his search for a discoursive and expressive
state based on almost nothing, even if such an effort is constantly belied
by the unrest and engagement of the performers - Guilherme Rodrigues,
on cello and pocket trumpet; José Oliveira, on percussion, prepared
acoustic guitar and inside piano; and Manuel Mota on flat electric guitar.
The game proposed by «Assemblage» consists in this very struggle
between will and praxis and in the contradictions arising from such a
conflict. Few times has the practice of improvisation been so transparent.
Rui Eduardo Paes
Para os mais distraídos, e para aqueles que gostam mas crêem
que a música improvisada não tem qualquer tipo de expressão
no nosso país, deveriam por certo estar mais atentos à agenda
da Associação Cultural Abril em Maio. Utilizando o seu palco
para combater a apatia, a ignorância e inércia, cada vez
mais fortemente instaladas, Ernesto Rodrigues tem desenvolvido inúmeras
actuações e performances dignas de louvor e reconhecimento.
Desfrutando da estada de Gianni Gebbia (saxofone alto); Ernesto Rodrigues
(violino, viola, electrónica), Nuno Rebelo (guitarra eléctrica)
e José Oliveira (percussão, guitarra acústica preparada),
beneficiaram da melhor maneira a compleição improvisativa,
contagiada pelo saxofonista italiano, onde a capacidade e o conhecimento
individual de cada músico, veio ao de cima de uma configuração
tão natural, que fez emergir toda a sala a uma condição
magnetizadora e hipnótica. Subtileza - arte - talento - Cérbero
- belo - soberbo - celsitude - aplauso, são palavras que podem
descrever uma actuação distinta. Na memória não
ficam palavras, ficam sim imagens abstractas, onde a contemplação
irá residir eternamente. Carlos Lourenço
Sexta feira, o magnífico espaço da Abril em Maio, acolheu
um espectáculo da Variable Geometry Orchestra, o terceiro da sua
curta vida. Vou tentar explicá-lo: Durante uma hora e picos, a
VGO apresentou aos parcos presentes (cerca de 20 e tal) um programa de
improvisação completa, destilado pelo colectivo de 11 elementos
(eram para ser 12, mas alguém ficou pelo caminho), com porções
de improviso colectivo dirigido ou não, e com peças improvisadas
"au moment" por quartetos de sopros, trios de cordas, ou conjugações
entre os dois, por vezes acompanhadas da guitarra eléctrica, noutros
pelo contrabaixo, ou pela bateria, ou pelas percussões de mil e
um objectos aparentemente inofensivos. Foi bastante interessante, com
momentos muito bons e sinceramente gostei. Gostei principalmente de Marco
Franco, do Ernesto Rodrigues, do Chaparreiro, do baterista e até
do percussionista, mas sobretudo do colectivo. Do colectivo porque, as
improvisações foram-se revelando, desenrolando, com indicações
do Ernesto Rodrigues para o assumir de papéis, e depois iam-se
encaixando, iam brotando, quase sempre de forma agridoce, sem nunca explodir,
eram sussurros, espasmos, ventos, completados por mil e um sons de que
o olhar procurava a origem. Nalguns momentos pareceram-me pouco decididos,
como que procurando-se a si próprios, concerteza fruto do pouco
tempo que tocaram juntos, o que por outro lado deixa antever, com uma
maior rodagem, uma interligação empática mais forte
na improvisação.Tudo isto durou cerca de uma hora e tal.
Seguiu-se depois a projecção de parte de um video com a
gravação de um anterior espactáculo de Ernesto Rodrigues
& co, com uma diferente formação. O video não
era o mero registo de imagem, era sobretudo a transformação
videoplástica da música, da improvisação.
Uma espécie de improvisação plástica em suporte
video ao som que se ouvia. Zooms gigantes, blurs, saturações,
pormenores, etc, etc. Por esta altura uns meros 10 resistentes ainda por
lá se encontravam. A pedido de muitas famílias todo o elenco
subiu ao palco para uns 20 minutos de pura desgarrada freeimprov. Delírio
e caos em doses maciças, os onze elementos entregaram-se à
improvisação total sem regras, numa cacofonia que teve momentos
absurdos e momentos de puro deleite, tal era a desgarrada ... só
visto! Há-de haver mais! A Abril em Maio prometeu. Ah! E já
têm a novel Bock preta, bem boa por sinal. Hasta! Stay free. Nuno
Martins
Ulrichsberger Kaleidophon 2003
[...] Atemberaubend war das in sich gekehrte portugiesische Quartet Assemblage.
Ein feiner Belag aus Geräuschkies, der Streich-, Blas- und Schlaginstrumenten
nichts von ihrer Charakteristik belässt, dessen Duktus aber nur mit
diesem Instrumentarium ziseliert werden kann: Weg von der instrumentalen
Kenntlichtkeit zu einer zarten Zeichmung, die den Zuschauer mit Beschlag
belegt und Staunen lässt. [...] Michael Frank
(Süddeutsche Zeitung)
Ernesto Rodrigues, com Guilherme Rodrigues, Manuel Mota, José Oliveira
e Margarida Garcia, são outras presenças portuguesas no
Co-Lab (dia 24 às 12h30).
[Ernesto Rodrigues], partiu para os limites mais radicais da música
improvisada até chegar à chamada “micromúsica”
ou “near silence”, apropriação das directivas
de John Cage, mestre escultor do silêncio ou, melhor dizendo, poeta-cientista
munido de microscópio sonoro de alta potência. Fernando
Magalhães (Público)
O clube de Jazz lisboeta Hot Clube, acolheu nesta noite um dos projectos
mais elevados de Ernesto Rodrigues - FICTA.
Agregando o guitarrista Manuel Mota à formação base
do trabalho gravado em 2002, a este quinteto nada faltou para que a subtileza
sonora invadisse o mítico espaço da Praça da Alegria.
O meu destaque vai sem dúvida para a astúcia demonstrada
pelo pianista Gabriel Paiuk, desenvolvendo técnicas menos convencionais,
no que respeita à forma de preparar o instrumento. Paiuk conseguiu
tirar do piano amplas possibilidades tímbricas e sonoras.
Evidenciando-se o local não ser o espaço ideal para o género
musical em questão. Foi gratificante sentir que a coesão
e maturidade deste magnífico colectivo não se tivesse deixado
abalar pelas conversas e ambiente mais calorosos inerentes aos clubes
de jazz.
Espero contudo que a engrandecedora mensagem - FICTA - tenha deixado marcas
fortes e contemplativas aos intitulados adeptos do “som da surpresa”.
Carlos Lourenço
A
linguagem é fonte de mal entendidos, mesmo quando a formulação
se rege de acordo com a sintaxe, e segundo os preceitos gramaticais correctamente
as grelhas de interpretação são subjectivas e sujeitas
a variáveis de interpretação. A linguagem dos sons
ainda mais, pois rege-se por métricas e lógicas que lhe
aumentam exponencialmente as potenciais capacidades receptoras.
Fui assistir a um concerto do Ernesto Rodrigues e da Orquestra de Geometria
Variável. Logo no nome temos um programa, de facto estamos face
a um quadro de hipóteses flutuante consoante as disponibilidades
da sonoridade, e as capacidades do espaço acústico. O local
Abril em Maio lembra outros locais, esconsos e clandestinos, para iniciados
e amantes. A música, o alinhamento das estranhas sonoridades, enche
os interstícios e ocupa a possibilidade de recepção
acústica. Por ela passam memórias e afectos com os instrumentos
e a vocalização. Os metais atiram-nos para o free
jazz e as cordas trazem-nos para uma decomposição da sonoridade
em que a melodia é uma improbabilidade mágica.
Uma abertura de espírito gera-se enquanto a polifonia desarmónica
de ruídos nos enche o cérebro. Ficamos atordoados e despertos,
como quando experimentamos cogumelos mágicos.
Parece não haver princípio, parece não haver fim
num tempo que parou e fica flutuante nos sons e na sua hipérbole.
Momentos como este valem um êxtase. Divino como o que se concentra
e prolonga. Um som que se ouve no silêncio do conhecimento. António
Eloy
Imagine
a blank surface. Now think how it would look if you cut with a knife some
traces and little holes on it. You have a visual texture now, something
to see but at the same time something that reminds you of the nothingness
of the surface. That's exactly that what Ernesto Rodrigues, Alfredo Costa
Monteiro, Guilherme Rodrigues and Margarida Garcia do with silence. Their
knives are sounds - the "incognito" sounds that a conventional
musical instrument can produce, even if it's impossible to notate them
- and what they do is textures. Maybe you don't want to call painting
a texture made with a knife (or maybe you do), and this quartet is indifferent
to the doubt if this is or isn't music. The question isn't really important,
and you must know by now that there's an imense artistic territory to
explore before music and after music - music is only one way to do...
well, let's call it music. Ernesto says, amused, that «Cesura»
(one of the Portuguese words to say "cut") is his less musical
work. Amused, certainly, but with the subversive feeling of someone carrying
a knife in the hand. Rui Eduardo Paes
The
violinist Ernesto Rodrigues is a major improviser from Portugal on his
own, but combined with his son Guilherme Rodrigues on cello he is part
of one of a deeply expressive example of family bonding through creative
music. Anyone would agree who has seen a live or filmed performance of
the two in action onstage, the father crouching over his son somewhat
akwardly in the throes of spontaneous composition but looking a bit like
he is trying to smell the kid's breath for alchohol—not that a Portugese
father would do such a thing. The senior Rodrigues has been active in
avant garde music for several decades, aligning himself with many revolutionary
forms of expression including micro-tonal tunings and the art of "preparing"
stringed instruments by actually altering their physical structure. The
violinist has performed with many groups on the Lisbon avant garde scene,
most notably the ensembles Assemblage and Ficta. In the latter trio, the
Rodrigues father and son work together with percussionist José
Oliviera. The senior Rodrigues started in the direction of free improvisation
groups such as this when he came in contact with the type of avant garde
classical scores that are often described as "indeterminate,"
meaning quite a few of the details of the actual performance are left
up to interpretation and/or serendipity. Rodrigues was also influenced
by electronic music, like many improvisers on traditional instruments
relishing the challenge of utilizing their axes to match, sound for sound,
the noise coming out of plugged-in equipment. The violinist has performed
for films, dance, performance-art projects and video as well as in concerts
and on recordings. In 1999 he started up his own label, Creative Sources.
Eugene Chadbourne
Introduce.
The days of liner notes that merely provide a description of the music
an album contains are long gone – we no longer need to be told how
to listen, nor what to listen for – but when it comes to titles,
hmm, maybe those words are important after all.. Ernesto Rodrigues –
whose Creative Sources imprint is fast becoming one of Europe's essential
labels in the domain of improvised music – could easily have chosen
some gloriously rugged Portuguese sonorities and had us scurrying to our
dictionaries in search of clarification, but instead has borrowed a French
noun from the world of photography – "contre-plongée"
translates as "low-angle shot", and the associated expression
"en contre-plongée" means "from below" –
and, to describe the six pieces on offer, the venerable English word "cut".
Discuss. Elaborate. In the past ten years, practitioners of improvised
music, finally severing the putrescent umbilical cord that attached the
genre to its distant transatlantic parent, free jazz, have pushed the
technique envelope of traditional acoustic instruments beyond all recognition
– as if the instruments themselves have been approached from another
angle altogether, as if seen from below.. Illustrate. One need merely
draw up a list (woefully incomplete, at that) of standard instruments
and namecheck the musicians whose furious innovation has taken them to
another level altogether: trumpet (Axel Dörner, Greg Kelley, Franz
Hautzinger and Matt Davis – to name but four!), trombone (Thierry
Madiot..), tuba (Robin Hayward..), flute (Jim Denley..), oboe (Kyle Bruckmann..),
clarinet (Kai Fagaschinski, Isabelle Duthoit..), soprano saxophone (Bhob
Rainey, Alessandro Bosetti, Stéphane Rives..), violin (Mathieu
Werchowski, Angharad Davies, Kazushige Kinoshita..), viola (Charlotte
Hug..), cello (Martine Altenburger, Nikos Veliotis, Mark Wastell..), double
bass (David Chiesa, Mike Bullock..), piano (Frédéric Blondy,
Sophie Agnel, Andrea Neumann..), not to mention harp (Rhodri Davies..)
and accordion (Alfredo Costa Monteiro..). And, en contre-plongée,
let's add the names of Ernesto Rodrigues (violin and viola), Gerhard Uebele
(violin), Guilherme Rodrigues (cello) and José Oliveira (bowed
acoustic guitar and inside piano). Extend. "String quartet"
needs some explanation too, then; the classical string quartet consists
of two violins, viola and cello, but as Ernesto Rodrigues plays both violin
and viola (though presumably not at the same time..) one could argue that
the line-up here is a classical string quartet compressed into a trio.
There's a wild card though, in the form of Oliveira – guitar passes
as a stringed instrument, sure, but the piano is a percussion instrument,
right? Conclude. Which takes us to "cut" – as in surgical
intervention, or – to pursue the cinematic analogy – stop
shooting: break, rethink, start again, remake, remodel. Why should the
piano be a percussion instrument (one can, after all, bow those strings)
and why should a violin not be a percussion instrument (it's about time
we dispensed with "percussion" altogether – friction would
be more appropriate..)? Cut, yes, time to take the scissors to the map,
prepare a landing strip for the string quartet of the 21st century. Listen.
Dan Warburton (www.paristransatlantic.com)
Portugal’s
Creative Sources has quickly become a must listen label. Focusing on music
that sits in the cracks between European free improvisation and “lowercase
sound” or “eai” music, label head and ace improviser
Ernesto Rodrigues has kept up an active release schedule and built up
an impressive catalogue of provocative improvisations. Jason
Bivins (Signal to Noise)
Ernesto
utilizando todas y cada una de las partes del arco para sacar sonoridad
a la viola, con apenas algún pasaje melódico, ha sabido
estrujar su instrumento hasta el límite de hacerlo sonar con una
balleta de esas de metal, las que tan bien rascan los restos de las sartenes,
y que en sus manos han rascado todos los restos posibles sonoros que puede
haber en un instrumento de cuerda-madera, optando por mostrar una faceta
totalmente expresiva más que musical. Sadhu,
Septiembre 2004, Madrid (España)
Creative Sources Recordings was founded by Ernesto Rodrigues in 1999,
but the first record was released in 2001. In the beginning the label's
task seem to record its owner's activity (he appears on half of the cds).
It's intelligible because Ernesto, active for twenty years musician (violinist,
improviser, composer) wasn't favoured to release records as a leader.
It has to be accentuated that increasing amount of records didn't decrease
the quality of music. Ernesto Rodrigues hasn't forget about other musicians.
Soon, in cd catologue (14 records so far) appeared records by new artists
(not only form Portugal). Rodrigues focused on music from the space between
improvisation, electroacoustic and so called "new music" (mostly
specific comprehended chamber music). Tadeusz Kosiek
(http://www.diapazon.pl/)
About
a year ago, I first reviewed a Creative Sources disc for Dusted and noted
that improvised music would be nothing without local scenes and the labels
dedicated to documenting them. That’s still true. But when people
start to take notice, the next level is the formation of links with other
scenes. The Lisbon-based label – run by Ernesto Rodrigues, an excellent
improviser who plays on some of the label’s releases – has
made that next step. Along with labels like Erstwhile, For4Ears, Confront,
Meniscus, and Potlatch, this imprint is documenting some of the finest
“lowercase” improvisation around and has become a label with
a strong track record and a global focus. Their release schedule has really
picked up of late too. In fact, they’ve just dropped a quintet of
recordings featuring a fairly broad array of European improvisers. Many
readers won’t be too familiar with the majority of the players.
That deserves to change. […] Taken as a whole, this quintet of discs
is pretty satisfying. While some clearly work better than others, they
give improv freaks some insight into what’s happening in some lesser-known
European scenes. They also confirm the strength and identity of this excellent
label. Jason Bivins (Dusted)
Três
dos melhores improvisadores nacionais reencontram-se para abordar um programa
de música composta no momento em que é executada. Micro-climas
sonoros criados em tempo real, que permitem investigar novas formas de
combinação e organização sonora. O concerto
de Ernesto Rodrigues, Manuel Mota e José Oliveira, ontem à
noite na Trem Azul – a que assisti apenas parcialmente – naquilo
que me foi dado ver e ouvir, cumpriu plenamente as expectativas. O som
do trio é muito coeso e a sala da Trem Azul possui boas condições
acústicas para a prática musical, em particular para este
tipo de contextos, pequenas formações de improvisação
livre, que induzem e facilitam uma relação de grande proximidade
- de intimidade até - entre artistas e público. Musicalmente,
o trio atingiu um elevado nível de maturação e desenvolvimento,
evidenciando a prática de tocarem juntos, cujos resultados são
conhecidos das gravações para a Creative Sources, editora
portuguesa criada por Ernesto Rodrigues. Os músicos interagiram
bem, construindo um discurso atravessado por uma poética que vai
do silêncio à brusca explosão, numa linha estética
que se filia na livre-improvisação europeia - em particular
da escola de Londres, pós Spontaneous Music Ensemble (SME), profusamente
documentada pela editora EMANEM - com referências à música
de câmara contemporânea. Manuel Mota afagou, percutiu e esfregou
as cordas, transformando a guitarra num instrumento cujo primeiro resultado
é a produção de texturas, ora rugosas e ásperas,
ora suaves e aveludadas, com enorme variação de cor e forma,
que se misturam com a manta de percussão que José Oliveira
estendeu, encolheu e voltou a estender. Estruturas flexíveis sobre
as quais a liquidez sonora do violino de Ernesto Rodrigues teceu malhas
recortadas a partir de uma imensa variedade de técnicas de execução
do instrumento. A electrónica, usada com parcimónia e integrada
na paisagem, contribuiu menos para a alteração ou modificação
sonora, que para adicionar novos significados e um certo efeito de transparência
sobre os procedimentos em curso. Música fragmentária e descontínua,
mas assinalavelmente coesa e estruturada em regime de construção
em tempo real, cheia de incidentes e surpresas a cada volta. Na música
de Rodrigues, Mota e Oliveira, todos os sons e silêncios são
válidos, pertinentes e fazem sentido, na sua totalidade como no
mais ínfimo detalhe. Eduardo Chagas (Jazz
e Arredores – à sombra de Ra)
Violinista
e manipulador de electrónica, Ernesto Rodrigues tem-se afirmado
nos últimos anos como uma das figuras de proa da actual cena improvisada
portuguesa. Não obstante a robusta discografia de que é
senhor, na sua maioria disponibilizada pela creative sources recordings,
a editora que dirige desde 1999, Rodrigues ainda está longe do
reconhecimento que há muito vem justificando. Na sessão
às escuras que lhe propusemos, e cujo grau de dificuldade poucos
deixarão de reconhecer como (pelo menos!) distante do acessível,
tentámos cobrir as suas principais áreas de interesse: Jazz,
Livre Improvisação, Electrónica e Clássica
Contemporânea. Aqui ficam então os principais momentos. […]
João Aleluia (Jazz.pt)
I'm continually surprised at the rate with which Ernesto Rodrigues releases
discs on his superb Creative Sources imprint. As most folks reading this
know, the excellent viola/violin/electronics improviser began to document
Portuguese and Spanish improvisation several years back and has quickly
developed his label into one of the premier outlets for improvisation
at the intersection of European free music, electroacoustics, and new
music. I recently opened up my mailbox to find a package stuffed with
seven of the label's latest goodies. All told, it's a strong batch. […]Taken
together, this septet of discs is worthy not just for their quality but
also for their documentation of this music (and some of its lesser known
players). Rodrigues already has a new batch out. In the meantime, however,
don't miss out on some of these gems. Jason Bivins
(Bagatellen)
As
últimas edições da portuguesa Creative Sources testemunham
que algo se está a passar no sector da criatividade sonora a que
demasiado apressadamente (percebemos agora) se chamou "reducionismo".
Já se discutia se esta frente da improvisação reduzia,
de facto, os materiais da sua produção musical até
às proximidades do silêncio, ou se, pelo contrário,
o que se pretendia era somar algo ao zero. Pois o que nos oferece a maior
parte destes discos - e creiam que a editora de Ernesto Rodrigues se tornou
mesmo no barómetro das evoluções ocorridas nesta
família - comprova que os tais "reducionistas" são
cada vez mais "acrescentacionistas". Com uma tónica mais
electroacústica do que alguma vez esperaríamos de um catálogo
que parecia apostar nos novos improvisadores acústicos, é
a toda uma mudança de parâmetros que assistimos. Se antes
o trabalho das texturas era uma característica genérica,
agora verifica-se já uma acentuação no labor tímbrico
e no plano harmónico, o que, se aproxima mais estas práticas
das correntes preocupações da música escrita contemporânea,
liberta-as também do que parecia estar a converter-se numa cartilha.
A recusa do fraseado e da nota convencional e o microtonalismo mantêm-se,
mas o estado presente desta prática deixou de lembrar a "action
painting" de Pollock para nos remeter às manchas pictóricas
de Rothko, com a rarefacção dos sons a ser contrariada,
muitas vezes, pela disposição de "drones" e até
pela sobreposição de camadas de elementos, tão transparentes
quanto aguarelas, decerto, mas valorizando a densidade. O próprio
volume auditivo subiu, o que até era previsível face ao
crescente desejo de evidenciar os mais pequenos pormenores do mundo microscópico
em que esta música tem vivido, por meio de microfones de proximidade
e de contacto no que aos instrumentos tradicionais diz respeito. […]
Rui Eduardo Paes (Ananana Newsletter)
[…]
If the gallery works for the aformentioned groups as a new place for both
creative relief and inspiration, for 45 year old violinist Ernesto Rodrigues
it’s been the one concert space in town where his shows have regularly
taken place. A militant label owner, promoter and generous curator of
collaborations, Rodrigues is now more than used to having to find his
own solutions to present his work. He set up the Creative Sources label
to put out his own music, and since the label’s first release (2001’s
Multiples), he has established himself as one of the most accomplished
improvisors in the lowercase/near silence circuit.
With Creative Sources, he has been constantly putting out releases by
several groupings and solo artists, including Tetuzi Akiyama, Axel Dörner,
Raymond Strid and Taku Unami, as well as by regular collaborators Manuel
Mota, Margarida Garcia, Barry Weisblat, Alfredo Costa Monteiro, José
Oliveira or his cellist son Guilherme, who he has been working with since
the age of 11.
Rodrigues’s path through extreme music precedesPortugal 1974 revolurion,
prior to which he became acquainted with American free jazz. He was inspired
by Cage’s Zen-influenced (non-)musical strategies in silence and
sound, Feldman’s microtonalism, an upbringing surrounded by Ligeti
and Stockhausen, as well as a strong connection with the first generation
of English improvisors of the late 60s/early 70s. Pedro
Gomes (The Wire)
The
unflaggingly energetic Portuguese label continues its chronicle of new
areas of free improvisation, as Jason Bivins attempts to keep up.
Since writing about Creative Sources earlier in 2005, over a dozen new
recordings have been released on Ernesto Rodrigues’ fine imprint.
Still concentrating, roughly speaking, on micro-improv and electroacoustics,
the label has developed several specific areas of concentration: solos,
duos, and group improvisations. Jason Bivins (Dusted
Magazine)
Violinista
/ violista de formação clássica e interesses que
vão da música contemporânea (é um habitual
frequentador dos seminários de Emmanuel Nunes) ao free jazz e à
livre-improvisação, Ernesto Rodrigues tem protagonizado
uma abordagem reducionista e de "near silence" em que a nota
é substituída pelo som puro (ou pelo ruído) e a estrutura
pelas texturas, com deflagração dos fraseados em elementos
atomizados, quase total desaparição dos três factores
essenciais da musicalidade convencional (melodia, harmonia e ritmo) e
utilização de microtons ou total atonalidade. Rui
Eduardo Paes
[…]
A música é também isso, um sentido para os sons e
silêncios, a harmonia desses resultante, ou a desarmonia.
A criação, recriação dos sons, das linhas
melódicas ou das rupturas, do fluído ou do corte, pelo silêncio
ou de outro ruído, que o silêncio também é.
A arte, como o exercício do palato é essa descoberta, e
a sua conjugação articulada ou desarticulada no seu sentido.
Gosto dos sons.
Com o Pedro Caldeira, meu velho amigo, apesar, e por isso mesmo, de todas
as divergências "ideológicas", escrevi sobre, ouvi
jazz, e também me enamorei desse som como sexo.
Com o irmão, o Zé Ernesto Rodrigues, e o Guilherme, e os
amigos colaboradores, e ontem com o Manuel Mota, no CCB, numa organização
do meu velho amigo e camarada REP e da Granular, ouvi uns sons "marados".
Que dão como referi uma grande pedra, no "bom" sentido,
pois são as desarmonias que contróiem uma vitalidade, a
vitalidade, o som onde se descobre sentir, sentido.
No carro vim a ouvir o cd “Dorsal”.
Cheguei nas nuvens.
Este som que se perde na perdição é uma nova energia.
Que ilustrará, a seu tempo um filme suave, sobre essas. António
Eloy
Ernesto
Rodrigues and Manuel Mota may be standing on top of a very strong tradition
in what concerns the relations between an arco string instrument and a
guitar: the one introduced before the Second World War in improvisation
by Stephane Grapelli and Django Reinhardt with the Quintet of the Hot
Club de France. They certainly come from that heritage, even if aesthetically
we can’t find any other common point besides the same naturalness
in terms of sound and interaction. Like what happened with those two great
figures, the extraordinary thing is that Rodrigues and Mota backgrounds
couldn’t be more different. The violist had classical training and
went through free jazz before arriving to the non-idiomatic music he now
embraces, and the guitarrist learned to pluck his ax by himself, moving
his path from a minimalist-like drone work and re-discovered fingerstyle
in the Delta blues based music.
And that’s what characterizes this duo: even if free in form, even
if inovative in terms of vocabulary and the technical procedures used,
the music they play has a strong sense of history. Elements of post-serialism
and of the trademark conceptions of Xenakis and Lachenmann melt in some
way with echoes of Robert Johnson’s playing, and jazz stylings connects
with references coming from the written European music of the two last
centuries. This meeting of cultures could seem bizarre, but it’s
so interiorized by both Ernesto Rodrigues and Manuel Mota that it’s
not a matter of fusion or collage. It’s like this music always existed,
ready to be performed, as something that is only the result of a continuity
and a simultaneity of musical data. Hybrids are the natural cultural objects
in this beginning of the 21st century... Rui Eduardo
Paes
Ernesto
Rodrigues essaie de présenter l’éventail le plus large
et le plus remarquable de cette scène qui a étendu ses ramifications
un peu partout de Londres à Oslo et de Tokyo à Paris. Il
privilégie l’ouverture le plus large possible dans cet univers
sonore où les choix musicaux sont fondés sur la restriction
et la volonté d’étendre la palette en se limitant
à un aspect bien précis du jeu instrumental. Parfois tellement
restrictif et limité que cela peut déboucher sur l’ennui.
Mais l’ouverture à ces nouveaux sons chez Rodrigues est très
éloignée de toute forme de dogmatisme et de complaisance.
Il suffit de mesurer la diversité des disques Creative Sources
pour s’en convaincre.
Jean-Michel
van Schouwburg
A
Trem Azul, prosseguindo a bem-aventurada série de concertos que
tem vindo a promover ao fim da tarde (19h30) na sua Jazz Store, em Lisboa,
acolheu desta vez a estreia mundial do Sexteto de Cordas, dirigido por
Ernesto Rodrigues. Além do violista e director, a formação
inclui Manuel Mota, guitarra acústica; Pedro Costa, violino; Hernâni
Faustino, contrabaixo; Eduardo Raon, harpa; e Guilherme Rodrigues, violoncelo.
Durante pouco mais de meia hora, o Sexteto executou duas peças
de música delicadamente pontilhística, livremente improvisada,
expressas num idioma que, se não totalmente familiar a todos os
executantes, se apresentou de modo a fazer com que as diferentes partes
se integrassem plenamente na progressão colectiva. Contrastes,
dinâmicas vivas e boa gestão de intensidades, criaram uma
interessante tapeçaria sonora de tonalidades escuras, como um drone
que ia perdendo e adquirindo carga na sua sinuosa e elegante evolução.
Todavia, o mais cativante da performance foi a forma gentil e graciosa
como se entrelaçaram as texturas criadas pelos diferentes cordofones,
seguindo uma pulsão rítmica interna, irregular e assimétrica,
tecida por uma infinidade de fragmentos melódicos, poalha recolhida
e reposta em jogo pelo trabalho de sustentação da harpa
e do contrabaixo. O resto foi o extravasar da enorme riqueza tímbrica
das cordas, num set de música de câmara com muitas arestas,
oscilações e inflexões de guitarra, violino, viola,
violoncelo e contrabaixo, ligados entre si por uma corrente de energia
criativa, para a qual contribuiram os protagonistas com o que têm:
ideias próprias para o colectivo e instantâneo desenvolvimento
musical.
Apesar da boa qualidade artística, vezes houve em que se notou
algum desinvestimento na direcção musical, com os músicos
ocasionalmente “aos papéis”, facto que é, simultaneamente,
o mais difícil e o mais fácil de acontecer na improvisação
livre – um género em que não há “papéis”
e em que “andar aos papéis” é um dos riscos
inerentes à prática musical sem rede –, controlo imediatamente
retomado no ciclo seguinte, muito porque estes músicos souberam
fazer uso do sentido de oportunidade, ouviram-se entre si e comunicaram
quando sentiram que o momento era propício.
Pena é que o público do jazz não se interesse, despreze
ou não esteja preparado para dar ouvidos a esta música,
que é de muito boa vizinhança e interpenetração
com aquele género, do qual não é, seguramente, nem
degeneração nem abastardamento. Diferentes entre si, têm
convivido pacificamente ao longo de décadas, com benefício
estético para ambas as linguagens. Mas essas são contas
de outro rosário. O que para aqui releva é que o Sexteto
de Cordas apresentou ao público uma boa proposta musical, eloquente
nos detalhes e delicada nas intersecções espontaneamente
geradas. Ideal para apurar o ouvido e despertar a fantasia. Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
Assentem
este nome: Creative Sources Recordings. É uma editora discográfica
portuguesa, dirige-a um músico e não um comerciante, Ernesto
Rodrigues, e tornou-se no "pivot" das novas tendências
internacionais da improvisação acústica e electroacústica,
do chamado reducionismo (tocado a um nível muito próximo
do silêncio ou integrando mesmo este nas suas construções)
ao "noise" que não confunde a utilização
de sons declaradamente não-musicais com descargas de adrenalina
e testosterona. Possuidora de um longo catálogo de lançamentos
que inclui nomes de três continentes, Europa, América e Ásia,
esta etiqueta funciona mesmo como o termómetro que assinala o que
vai mudando estética e tecnicamente nestas áreas. E com
isso está a fazer história, pois nada de semelhante aconteceu
antes com um empreendimento português do género. E o curioso
é que outras "labels" nacionais seguem já o mesmo
caminho, a Clean Feed no que respeita ao novo jazz e a sirr no domínio
da electrónica. Não obstante tudo o que de mau tem havido
por cá, Portugal está a dar cartas, com o reconhecimento,
a atenção e o entusiasmo até da imprensa musical,
dos canais de distribuição e dos melómanos de outros
países. Os nossos parabéns. Rui Eduardo
Paes (Ananana Newsletter)
[…]
The first group, assembled by violist Ernesto Rodrigues, were very quiet,
with sounds from prepared strings, mouthpiece-less soprano sax and trumpeter
Masafumi Ezaki, who at one point drags his instrument across a drum head
to make little noises. When Ezaki plays a sustained note, it seems almost
perverse. There are beautiful sounds and ugly ones. […]
John L Walters (The Guardian)
Enquanto
atravessava o Bairro Alto a caminho da ZDB para assistir ao concerto da
Variable Geometry Orchestra, dizia para os meus botões esperar
uma sessão de livre-improvisação clássica,
em passo lento e muito jogo a meio-campo. Surpresa! Adianto já
que foi um dos melhores concertos a que assisti este ano.
Na realidade, deparei-me com um magnífico trabalho orquestral,
feliz na exploração tímbrica, na difícil administração
de 16 egos, autogestão dos tempos de entrada e saída, no
saber ouvir, reagir e estar parado – papel fundamental! Notei uma
incontável sucessão de pontos de interesse, de que destacaria
os momentos de vigorosa progressão com acentuadas subidas e descidas
de intensidade, a que só faltou os metais terem correspondido em
grito às invectivas rítmicas disparadas de vários
pontos da panorâmica, a um passo da explosão total, catarse
de uma música que produz e se alimenta de fortes campos magnéticos.
Neste aspecto, fez falta um pouco mais de brass, um trombone ou dois (Fala
Mariam ou Eduardo Lála teriam sido duas excelentes hipóteses),
trompete e outro saxofone, além do tenor de Abdul Moimême
e do alto de Nuno Torres, para aumentar a expressividade do colectivo
e, sobretudo, servir os momentos mais trepidantes, em que o fogo se torna
abrasador, no limite do suportável.
Em acção, a Variable Geometry Orchestra surgiu espontaneamente
montada em duas duplas: Manuel Mota (guitara eléctrica, na posição
de primeiro violino da orquestra clássica) e Ernestro Rodrigues
(viola), à frente, estabelecendo as coordenadas para a atonalidade
geral; e lá atrás, José Oliveira (bateria, percussão,
excelente uso do bombo e pratos), e Hernâni Faustino (contrabaixo),
a ligação perfeita no trabalho de propulsão rítmica
a uma só respiração, qual «Faustino & Oliveira,
materiais de construção, ilimitada». A eles se ficou
a dever parte substancial da coerência e da dinâmica imparável
da orquestra. No meio, a ponte entre as duas margens, Sei Miguel, a soltar
o risco e o brilho do trompete de bolso, outro dos heróis da noite.
Nesta dupla triangulação se apoiou o resto da VGO, informalmente
organizada por naipes, na permanente troca de posições,
de forma a tornar imprevisível o passo seguinte. Bom trabalho dos
cordofones e dos ruidistas (laptop, field recordings, tape, sortido de
percussões...), que encheram a panorâmica com pertinência,
propósito e leveza. As texturas de fritadeira e gratinado de guitarra
preparada e laptop, de impressionante bom gosto, somaram-se às
gravações de campo de João Silva e trouxeram um tempero
especial ao conjunto, transportanto para o interior de uma música
que é tida como música de câmara, sinais sonoros da
rua, contrastando urbanidade com bucolismo. Deste modo, a ilusão
foi perfeita e enorme o valor acrescentado em matéria de cor e
movimento.
O que esta inspirada versão da VGO provou é que há
outro jazz emergente, que desponta e se ergue das cinzas do género,
apoiado no melhor que a livre-improvisação tem para dar,
espécie de tertium genus diferente do que se conhece no panorama
das orquestras de free jazz ou de free improv, europeias ou americanas,
do passado e da actualidade. Com uma vivência musical muito para
além das pré-formatadas regras de organização
sonora. Há algo de novo que se conjuga com o que é comum
a outras linguagens. O resultado prático foi uma espantosa e empolgante
sucessão de quadros musicais expostos com grande convicção,
mérito de todos os participantes e em especial de Ernesto Rodrigues,
diligente congregador de vontades e organizador sonoro de gabarito.
O espanto foi ainda maior quando fiquei a saber que diante de mim se desenrolara
e voltara a enrolar o novelo durante hora e meia, sem que jamais tivesse
tido a consciência da passagem do tempo, de tal modo me encontrava
em estado de transe e graça musical. Por mim, teria ficado para
outro tanto e com muito prazer. Os músicos também, estou
em crer. A sessão foi gravada. Para a edição, já!
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
A
Orquestra de Geometria Variável é um projecto liderado por
Ernesto Rodrigues, incansável dinamizador na cena da música
improvisada nacional. A par com a coordenação da editora
Creative Sources (a desenvolver um trabalho cada vez mais notório),
mantém uma série de projectos em simultâneo. Há
um par de semanas Ernesto estreou o Sexteto de Cordas (notável
ensemble acústico onde se destaca a inclusão de uma harpa)
e no sábado foi a vez de levar a Orquestra VGO à Zé
dos Bois.
Estava inicialmente previsto que se juntassem dezanove músicos
em palco, mas a ausência de alguns reduziu o número de elementos
para dezasseis – nada de mal, uma vez que, como o nome indica, nesta
orquestra a geometria é variável. O propósito anunciado
deste grupo era, a partir de livre improvisação combinada
acústica e electrónica, conseguir criar uma unidade de som
e abrir espaços para o silêncio – “o som rompe
do silêncio para nele voltar a mergulhar”, prometia o press-release.
E assim aconteceu.
Conduzido pela viola de Ernesto Rodrigues, o grupo seguiu numa extensa
viagem musical bem estruturada, numa alternância entre quietude
e crescendos desenfreados. Manuel Mota, regressado à guitarra eléctrica
depois da experiência acústica no Sexteto de Cordas, foi
a segunda voz, sem exageros mas com uma presença forte, envolvente
na construção de texturas. Logo depois evidenciou-se a importância
da percussão: José Oliveira na bateria (kit personalizadíssimo)
e César Burago em simples cowbell (melhor instrumento de sempre,
como dizem agora os putos) foram determinantes na caminhada. Sei Miguel,
apesar das esparsas aparições, fez o pocket-trumpet (com
surdina) brilhar e introduziu novos elementos.
O papel das restantes cordas foi determinante: Guilherme Rodrigues, filho
de Ernesto, mostrou-se sempre atento no violoncelo; Pedro Costa (violino)
teve pormenores de interesse; Hernâni Faustino balançou no
contrabaixo. A dupla de saxofones (Nuno Torres no alto, Rui Horta Santos
no tenor) esteve discreta, mas ainda se fez notar nas partes crescentes.
Tornava-se difícil identificar propriamente os sons provindos da
secção electrónica (field recordings, gira-discos,
electrónica, tape), mas o quarteto ia fornecendo ambientes inspirados.
E a maior surpresa da noite terá sido a presença do didgeridoo.
Entrando pela emissão de sons inesperados e próximos do
sussurro, a música foi crescendo progressivamente, culminando em
momentos de grande intensidade de convulsão colectiva. Há
uma semana atrás o histórico Telectu fez prova de vida,
agora foi tempo da geração presente dar sinais de grande
vitalidade na mesma Galeria Zé dos Bois. Num raro momento em que
fervilham ideias e projectos na improvisação portuguesa,
aguardam-se com curiosidade futuros desenvolvimentos relativamente a este
large ensemble nacional, talvez a “nossa” mais imponente formação.
Nuno Catarino
(Bodyspace)
Se
há coisa que mais distingue as novas práticas da improvisação
das “mainstream”, sem ser a utilização do silêncio
e o abandono da narratividade nas execuções instrumentais,
é o facto de os seus protagonistas preferirem deixar-se levar pelo
fluxo dos eventos sonoros em vez de os dirigirem – aliás,
a preocupação da “velha” música improvisada
com a conclusão das peças chega a ter dimensões algo
neuróticas, dada a necessidade sentida de conduzir as situações
a todo o custo, seja segundo o modelo estático herdado do free
jazz coltraneano, no qual o fim é sempre implicado, ou segundo
o padrão desenvolvimentista, cujas mudanças de direcção
e de intensidade (as tão irritantes subidas e descidas) justificam
o uso do termo “composição imediata” e que,
parecendo deixar o final “para depois” no ziguezaguear ou
no subir e descer das suas estruturações, não fazem
mais do que o anunciar. Pois os chamados “reducionistas”,
de que a portuguesa Creative Sources Recordings se tornou no principal
porta-voz, não compõem, limitando-se a tocar o que ouvem
e a ouvir o que tocam, de tal modo que o tocar é a extensão
do acto de ouvir. Os mais recentes lançamentos da editora são
exemplos muito concretos desta perspectiva a-linear da música,
e se em muitos casos é mesmo de supor um alheamento relativamente
a tudo aquilo que define a música enquanto tal, ainda que encarada
apenas como “organização de sons” (quase total
ausência de dinâmicas, inexistência de repetições,
opção pelas parasitagens sonoras e pelo ruído, ou
seja, pelos sons não-musicais), a musicalidade surge como uma citação
e uma lembrança, na forma de um tom, um breve fragmento de melodia,
um harmónico ou uma pulsação, a música remanescente
no interior de uma invocação directa (porque não
mediatizada musicalmente) do Som, chamada a intervir não para definir
ainda estas práticas como coisa musical, mas precisamente para
salientar por contraste esse outro estatuto. […] Rui
Eduardo Paes
Concerto
na Trem Azul Jazz Store. Programado para as 19h30 de 16 de Dezembro, estava
o sexteto de Ernesto Rodrigues, passado circunstancialmente a quinteto
por impossibilidade prática de participação de Sei
Miguel. Com Ernesto Rodrigues (viola, violino) alinharam Manuel Mota (guitarra
eléctrica); Alípio Carvalho Neto (saxofone tenor); Guilherme
Rodrigues (violoncelo, trompete de bolso) e Elsa Vandeweyer (vibrafone,
percussão). Músicos que colocaram cá fora todo o
seu potencial, no puro prazer da alma que é dar e receber –
tudo aquilo que o diferencia do “negócio” corrente,
o deve e haver da hodierna mediocridade contabilística. Sons mil
correram de um lado para o outro em aparente auto-gestão. Difícil
é tornar isto num sistema, uma linguagem articulada e compreensível.
Mais ainda, quando o verbo nasce, projecta-se e interage com os outros,
tudo no mesmo momento, que já é passado ainda mal se esboçou.
O quinteto soube fazê-lo com sagacidade, dando ao som um corpo,
sangue, ossos, músculos, pele e vida própria. O todo, sinergeticamente,
foi superior à soma das partes, numa alegoria de sociedade em rede,
na qual a comunicação multipolar circula em todos os sentidos,
sem um centro tonal ou difusor para além da direcção
e das vozes que lhe atribuem o sentido de ente organizado. É a
auto-regulação que põe ordem na comunidade específica
de discursos e registos, diferentes na sua singularidade, os quais, para
se entenderem entre si e fazerem-se entender pelo público, têm
que falar um dialecto comum. E falaram.
Free jazz, entendido como outro jazz, tocado hoje por músicos versados
em vários léxicos, poliglotas musicais que se inspiram em
todo o material sonoro que transportam em si, no momento e na memória.
Memória do jazz, tal qual ele se praticou sobretudo desde a década
de 60 para cá, da improvisação liberta dos acordes
ou inspirada na New Thing, que já não tem a ver com esse
processo histórico, mas que dele herdou a liberdade de escolha
de métodos, formas, conteúdos, práticas e caminhos,
que ajudam à sua compreensão, na medida em que todos os
sons são válidos, desde que cageanamente integrados coerentemente
no discurso principal. Esta é pois uma prática musical que
assenta 100% no imediato, a arte em movimento à procura de algo
diferente do que já existe.
Assistir em directo ao desenvolvimento desta música é um
desafio que poucos querem permitir-se a si próprios: o de tentar
compreender e apreender como é que uma forma de arte evolui de
dia para dia, ver o filme (imagens em movimento) em vez da fotografia
(imagem estática), que apenas capta o momento único e irrepetível.
Sentir a entrega generosa dos artistas, o quanto eles nos querem dar sem
nada receber em troca, excluindo a nossa atenção concentrada
e o aplauso final. É o desígnio destes mprovisadores que
trabalham para manter a chama acesa, convocando-nos para participar activamente
no processo criativo, parte do incessante devir que é a vida e
a criação artística.
Neste sentido, por tudo isto e pelo mais que é indizível,
foi um privilégio assistir à actuação do quinteto
liderado por Ernesto Rodrigues, com Manuel Mota, Alípio Carvalho
Neto, Guilherme Rodrigues e Elsa Vandeweyer. Espantosa interacção
das cordas (Mota a tocar mais alto do lhe costumo ouvir, com um som sólido,
potente e granulado, que contrasta bem com a macieza das cordas da viola
de Ernesto Rodrigues); Alípio e meter-se bem pelo meio, driblando
com o sax tenor potente e volumoso de sempre, na pele de hábil
promotor das dinâmicas do grupo. Do outro lado, na ponta esquerda,
Vanderweyer alternava entre ataques de percussão marcial e maviosas
sonoridades do vibrafone, até encontrar um ponto de equilíbrio
entre os dois polos. Guilherme Rodrigues, jovem talentoso possuidor duma
rodagem muito considerável, primou nas cordas do violoncelo (que
belo som!). Em pocket trumpet lançou clarões de luz para
o meio da refrega, picando Alípio C. Neto para um mano-a-mano que
atingiu proporções de cuja possibilidade não suspeitaria.
Em muito reforçaram essa misteriosa relação entre
o que é da dimensão humana e o que pertence à outra,
a cósmica, numa predisposição espiritual de intemporalidade
que celebra o gosto de criar e de estar vivo em toda a parte.
Música inquietante, expressionista, doce e agressiva, absurdamente
grotesca por vezes, angélica noutras – a mesma matéria-prima
inerente à condição humana – que não
pretende empatizar à superfície, mas causar incómodo
bastante para desinquietar e desinstalar as consciências, algumas
delas adormecidas por 100 anos de Jazz.
Numa segunda parte, um jantar e três horas depois, na intimidade
dos poucos e resistentes circunstantes, tocaram Ernesto Rodrigues, viola
e violino; Inês Almeida, violino e viola; Pedro Costa, violino,
violoncelo e guitarra eléctrica; Manuel Mota, guitarra eléctrica
e viola; Hernâni Faustino, violoncelo; Abdul Moimême, pocket
trumpet e guitarra; Travassos, crackle box; e, perdoe-se-me a imodéstia,
as grandes revelações da madrugada: Lizuarte “Li Cherry”
Borges, magnífico em trompete de bolso; e, para grande surpresa
minha, Eduardo Chagas, em crackle box e violino. Sem palavras, mas com
muito amor à música. Eduardo Chagas
(Jazz e Arredores)
Ontem
foi dia para a comunidade "improv" nacional mostrar a sua vitalidade.
A loja Trem Azul recebeu um quinteto liderado por Ernesto Rodrigues, que
para além dos habituais acompanhantes Guilherme Rodrigues e Manuel
Mota, incluiu dois elementos roubados ao grupo jazz IMI Kollektief: Alípio
Neto e Elsa Vanderweyer. Ao contrário do que é habitual
nas formações de Rodrigues, desta vez as propostas de aproximação
ao silêncio foram abandonadas, em vez disso o grupo deu uma sessão
de música free potentíssima. O princípio de noite
de sexta-feira observou um espectáculo de música livre intensa,
onde os sopros (Alípio no tenor, Guilherme no trompete de bolso)
foram determinantes. Nuno Catarino (A Forma do Jazz)
Na
terça-feira, o violista Ernesto Rodrigues - acompanhado por Guilherme
Rodrigues (violoncelo), Masafumi Ezaki (trompete), Alessandro Bosetti
(saxofone) e Angharad Davies (violino preparado) - comandou um barco cuja
música parece, muitas vezes, um navio de madeira no alto-mar. As
madeiras que rangem, incham, chocam, estalam, o vento e o mar ali perto,
a eminência de uma tempestade que não chega a acontecer.
António Pires (Blitz)
Over all, Creative Sources is an average label, releasing primarily experimental
jazz, improv, indie, and experimental music. However, the downside to
this, is alot of the stuff is similar in sound due to the label owner
Ernesto Rodrigues participating in alot of the releases. So, to the new-comer
to this label, it may come off as a bit tedious. However, apart from that
only 'flaw', the label has managed to release alot of excellent and unique
music over the years. (Discogs)
[...]
Ao lado de
gente como Carlos Zíngaro ou Carlos Bechegas fez a história
da música improvisada em Portugal. Actualmente gere a editora Creative
Sources Recordings, que apesar da reduzida dimensão já editou
alguns dos mais importantes músicos europeus e já se tornou
uma referência da música improvisada mundial – apesar
de em Portugal ser quase desconhecida. Já tocou com músicos
de renome internacional como Tetuzi Akyiama ou Hans Koch e actua regularmente
em Lisboa apresentando uma variedade imensa de projectos onde a música
é concentrada à sua essência e surge livre como necessidade
vital. Se neste momento podemos dizer que há uma certa visibilidade
para a música improvisada em Portugal, muita da responsabilidade
é devida a este homem, improvisador e impulsionador, Ernesto Rodrigues.
Nuno Catarino (Bodyspace)
Ernesto
Rodrigues’ fine—and very productive—Creative Sources
imprint has rocketed into the forefront of improv imprints specializing
in various strains of electroacoustic and “lowercase” musics
(the labels are oft-debated, so insert asterisks as you please). The latest
batch of releases isn’t as consistent as one might hope for, but
there are still many rewarding discs, some exceptional moments, and a
much-appreciated opportunity to hear new musicians at work. Jason
Bivins (One Final Note)
Neste
passado sábado a loja Trem Azul foi palco de um espectáculo
de música improvisada que reuniu músicos de Madrid e Lisboa.
Sob a designação AA Tigre & Free Improvisors, juntaram-se
no palco sete músicos que desenvolveram uma notável sessão
de improvisação centrada em aproximações ao
silêncio, onde a concentração colectiva foi impressionante
– ainda mais admirável porque foi a primeira vez que tocaram
juntos. A orientação era dada pelos sopros (Andres Velazquez
em sax tenor/flugelhorn e Jesus Ramirez na tuba) ao lado de Ernesto Rodrigues
(viola/violino), seguindo-se as sugestões oportunas do violoncelo
de Guilherme; o clarinete juntava-se às sugestões dos sopros,
formando um trio que quase não tocou notas, apenas efeitos; as
guitarras (eléctrica e acústica preparada) acrescentavam
outros efeitos, por vezes quase imperceptíveis. Depois de dois
primeiros temas extremamente sossegados, houve espaço para descomprimir
no tema final, com crescendos um pouco mais abrasivos. Inesperadamente,
uma união ibérica em improvisação reconfortante.
Nuno Catarino (A Forma do Jazz)
O
violinista e improvisador português Ernesto Rodrigues anda numa
roda viva. Depois dos concertos em Lisboa que fará nos próximos
dias (ver detalhes), a 22 de Janeiro inicia uma estada em Berlim (Ausland),
onde realizará concertos até 1 de Fevereiro, com o guitarrista
luso Manuel Mota.
A 7 de Fevereiro partem ambos em digressão para os EUA, até
4 de Março. Vão arrasar o afamado Seattle Improvised Music
Festival, entre 8 e 12 de Fevereiro; dali dão um salto à
canadiana Vancouver e depois descem até S. Diego, na Califórnia,
com passagem por toda a West Coast. Partirão depois rumo à
East Coast, terminando o périplo em Nova Iorque, quase um mês
depois. Em cheio! Excelentes notícias da internacionalização
da moderna música improvisada portuguesa. E mais, o número
de Fevereiro da revista Down Beat traz um artigo inteiramente dedicado
ao trabalho de Ernesto Rodrigues. Parabéns, Ernesto! Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
O
grupo constituído pelo norte-americano Wade Matthews, por Bechir
Saade e pela dupla Rodrigues (Ernesto e Guilherme) forjou uma sessão
de extrema de lowercase, sustentada na concentração do quarteto
que optou por seguir numa estrada permanente de baixa latitude, sem medo
do silêncio - acima de tudo, notou-se uma permanente consciência
colectiva. Nuno Catarino (A Forma do Jazz)
A
música que os portugueses Ernesto Rodrigues e Guilherme Rodrigues
(viola e violoncelo, respectivamente), o norte-americano Wade Matthews
(flauta alto, clarinete baixo e laptop) e o libanês Bechir Saade
(clarinete baixo, nay) tocaram na primeira parte do duplo concerto dia
17 de Janeiro, na Trem Azul, aproxima-se esteticamente de algumas correntes
da composição contemporânea. Explorações
musicais em que cada fragmento sonoro encerra conjuntos maiores ou menores
de outros sons, harmónicos insinuados pelas cordas contra e a favor
dos sopros, contrastando altas e baixas frequências em movimento.
Música que em grande medida explora a gestão do silêncio
como ausência de som (que não é o mesmo que ausência
de música), a frase que se começa a desenhar mas que se
deixa propositadamente inacabada, encaixa noutra de imprevisível
origem, duração e direcção, que instiga a
formação de contrastes e aproximações, matizes
diversos de sombra e luz, cambiantes que se mesclam e complementam, notas
soltas para quem as quiser apanhar e passar a outro. Ruídos cageanamente
integrados na paisagem sonora, construção, ruptura, inflexão,
acervo de assimetrias discursivas que se estabelecem propositadamente
ao acaso, indeterminadas e instantâneas.
[…] Nada está escrito no papel, como na linguagem, em que
a fala precede a escrita. No mesmo sentido, a improvisação
serve finalidades de comunicação entre os músicos,
e entre estes e o público, resultando na revelação
de mundos sonoros complexos e misteriosos, que se posicionam para lá
das convenções do tonalismo, atonalismo, reducionismo ou
minimalismo, free jazz e livre-improvisação, fruto da interacção
consciente entre músicos com diferentes backgrounds, formações,
origens culturais e geográficas, irmanados no propósito
de criação sonora em comum, em busca de qualquer coisa:
outras formas de produção e de escuta musical. Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
O
Hot Clube é o local sagrado onde religiosamente se reúne
e convive a comunidade do jazz português - de um certo jazz, melhor
dizendo, já que o HCP tem preferência por artistas e sonoridades
mais clássicas e regulares e por norma desdenha quem se aventure
em liberdades maiores. Apostado numa programação canónica,
são raras as vezes que vemos a cave da Praça da Alegria
arriscar projectos free. Foi por isso que nesta passada quarta-feira assistimos
com muito prazer à apresentação do auto-denominado
“Free Nonet”.
Inicialmente agendado como sexteto, no dia do concerto o grupo estendeu-se
num invulgar noneto – uma formação grande, demasiado
grande para o minúsculo palco. Ainda assim couberam lá todos,
nove músicos portugueses (ou residentes por estas bandas). Alinhados
numa dinâmica de free jazz exemplar, os sopros tomaram a dianteira
e conduziram a noite. O tenor do brasileiro Alípio Carvalho Neto
transbordou energia, o trompete (Ricardo Pinto) procurou espaços
para brilhar individualmente (embora descurando o grupo) e o trombone
de Eduardo Lala esteve soberbo, tanto a como a interagir com os colegas
como a solar sobre o colectivo. Peter Bastiaan dedicou pouca atenção
ao saxofone alto, preferindo ocupar-se da percussão, mas teve inspiração
para o momento spoken word da noite (Alípio imitou-o, mas sem o
mesmo fulgor).
Ernesto Rodrigues surgiu afastado da habitual estética de livre
improvisação lowercase e, apesar da agitação
tirânica dos sopros, conseguiu impor a voz do seu violino - tarefa
difícil mas conseguida com arte. Na guitarra apareceu Luís
Lopes, substituto do inicialmente previsto Manuel Mota. Optando por um
fraseado guitarra-jazz de pendor tradicionalista, tratou de seguir a direcção
do grupo e cumpriu (mas, em todo o caso, seria preferível uma abordagem
menos ortodoxa, mais liberta). Rodrigo Pinheiro, um jovem que há
poucos meses integrou o projecto “Cobra” de John Zorn, encarregou-se
do piano e manteve o bom nível, particularmente intenso nos diálogos
com as cordas – o duo com o contrabaixo (Hernâni Faustino)
foi do melhor da noite. Na bateria, Rui Gonçalves foi responsável
por alguns dos momentos mais fortes e por algumas mudanças de direcção.
O templo foi invadido e os nove conquistadores não se acanharam
a impor o seu estardalhaço free. Entre subidas, acalmias, turbulências,
paragens, provocações, respostas, sugestões, convergências,
dispersões, união e individualidade, foi uma noite de grande
música: intensa, cheia, reconfortante. A festa ousou prolongar-se
por horas impróprias para gente honesta e trabalhadora, mas ninguém
se ralou. Afinal de contas, são sempre de aproveitar as oportunidades
em que o Hot se transforma, pleno de liberdade, num verdadeiro Clube.
Nuno Catarino (Bodyspace)
Acaba
de ser editado o mais recente trabalho do violinista Ernesto Rodrigues.
Esta edição é um duo com o alemão Hans W Koch,
editado pela netlabel CtrAltCanc. "Nostalgia" é o resultado
da combinação de ideias de uma dupla que gera um evoluir
constante de texturas que se alimentam progressivamente. Hans W Koch manipula
a lógica electrónica, pela intromissão de bips e
blips numa cadência marcadamente irregular. Ernesto Rodrigues introduz
outros elementos, por vezes registos suaves, outras vezes arrancando à
força da viola rangidos da madeira. Seguindo a clássica
estética lowercase, raramente a música sobe o volume –
uma das raras ocasiões em que tal acontece é no crescendo
final da primeira peça. Entre as quatro faixas que preenchem esta
edição, "Nostalgia" prende pela atenção
microscópica que é dada ao detalhe, a cada instante sonoro,
a cada ínfimo pormenor. E, apesar de se tratar de uma parceria,
o produto final soa coerente e coeso. Nuno Catarino
(A Forma do Jazz)
Ernesto Rodrigues has, of all players in the field of non-idiomatic improv,
been the most manifest on the internet, with what is now already his third
net-label release (also having his music out on ctrl-alt-canc and Stasisfield).
Within this present constellation (together with Libanese avantists Christine
& Sharif Sehnaoui) a musical universe is conjured which, lacking any
figurative tendencies, can be characterised as a very hylic affair - dealing
as it does with the 'lowest' portion of musical matter, letting for no
instance of sublimation. The grittiness, the very elemental quality of
the sonorities are something of a very coarse-definition blow-up of the
respective instrument's material properties (being violin, guitar &
saxophone), a white-noise produced by solely analogue mechanics. Under
the stress & strain of several extended techniques the acoustic possibilities
that these instruments intrinsically possess are elicited from the marrow
of their material structure, which is not a pretty picture. It is, in
fact, not a picture at all, but rather an instance of the deconstruction
of Maya. Mark Pauwen
Somam-se
as novidades da portuguesa Creative Sources Recordings, uma das mais dinâmicas
editoras independentes do mundo e arredores. E cada vez com maior presença
de instrumentos eléctricos e electrónicos, comprovando que
as novas tendências da improvisação já não
privilegiam o instrumentário acústico convencional, aplicando-lhe
técnicas extensivas ou alternativas. Rui
Eduardo Paes (Ananana Newsletter)
O
concerto da Variable Geometry Orchestra de ontem à noite na ZDB
foi um acontecimento altamente estimulante, tanto para quem tocou, como
para quem assistiu. Uma hora inteira de música livremente improvisadada,
em formato de big band, com um mínimo de organização
da parte de Ernesto Rodrigues, que optou por conceder ampla liberdade
aos vinte e muitos improvisadores, para fazerem fermentar o som e dar
largas ao desenvolvimento da linguagem musical que já é
própria desta orquestra. Uma vez mais, Hernâni Faustino e
José Oliveira protagonizaram o papel da dupla de propulsionadores
rítmicos do melhor que em Portugal existe no género. Souberam
impulsionar o colectivo alargado para uma das suas mais interessantes
e enérgicas prestações, que encontra referências
tanto do jazz como da livre-improvisção. O que faz desta
orquestra um caso único, felizmente repetível. Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
Congregando
músicos das mais diversas proveniências, da electrónica
à livre improvisação e sem esquecer o jazz, a Variable
Geometry Orchestra (VGO), liderada pelo violinista Ernesto Rodrigues,
é uma formação de características únicas
no panorama das músicas improvisadas em Portugal.
No passado dia 1 de Abril, a Galeria Zé dos Bois proporcionou-nos
uma das raras ocasiões para assistir a uma actuação
ao vivo deste agrupamento de alargadas dimensões.
Uma das novidades deste concerto, fazendo jus à própria
designação da orquestra, foi o assinalável incremento
do número de músicos participantes, que agora quase chegou
aos trinta. Este engrossar das fileiras da VGO, que na actuação
anterior havia “apenas” contado com dezasseis elementos, consistiu
essencialmente no reforço do naipe dos sopros, secção
menos bem representada face à crescente preponderância da
instrumentação electrónica na estratégia da
orquestra.
Destaque, assim, para os regressos de músicos como Rodrigo Amado
e Eduardo Lalá, e para a estreia de um saxofonista que muitas cartas
tem dado ultimamente – Alípio Carvalho Neto. No entanto,
ao equilíbrio instrumental que Ernesto Rodrigues procurou conferir
ao conjunto contrapunha-se um risco acrescido – a susceptibilidade
de tanto as madeiras como os metais se sobreporem sem grandes dificuldades
aos demais instrumentos. Se a isto somarmos as dificuldades inerentes
às condições acústicas da sala, um espaço
manifestamente exíguo para a dimensão da orquestra, o que
obrigava os músicos a disporem-se muito perto uns dos outros, não
havia dúvidas que estávamos perante uma performance de elevado
risco.
A verdade é que ao longo da quase hora de música que nos
foi proporcionada, todos os intervenientes demostraram estar à
altura dos desafios que a priori se colocavam. Pese o facto de alguns
destes músicos nunca antes terem tocado entre si, o tutti funcionou
sempre como uma unidade consistente e equilibrada, prevalecendo entre
os elementos da orquestra o espírito de interacção
e comunicação sem o qual um projecto desta natureza dificilmente
poderia vingar. E atestando isso mesmo, Ernesto, como coordenador de esfoços
e sensibilidades, apenas pontualmente foi obrigado a interferir no rumo
dos acontecimentos, mas sem que com isso constrangesse em demasia a liberdade
criativa dos músicos.
Em linha com outras actuações, um aspecto a louvar neste
concerto foi o facto de a VGO ter evitado seguir de forma declarada e
previsível os ensinamentos de predecessores emblemáticos
neste género de experimentações (Sun Ra, Globe Unity
ou London Improvisors Orchestra). Por exemplo, se as notas de apresentação
do concerto deixavam antever uma aposta assumida numa estratégia
de alternância entre irrupções expressionistas e períodos
de serenidade e acalmia, sentiu-se, bem pelo contrário, que as
situações fluíram com naturalidade e ao sabor da
inspiração e intuição conjuntas.
De referir também que raras vezes um ego sobressaíu. Aliás,
duas foram as excepções em que tal aconteceu. Primeiro foi
Eduardo Lalá, um músico que se sente à vontade tanto
em contextos de música escrita como improvisada, que sobreluziu
num poderoso e pujante solo. Depois, e já perto do final, Peter
Baastian irrompeu da assistência para, numa entoação
grave e sibilina, declamar densas e inspiradas galimatias, naquela que
acabou por ser uma das maiores supresas da noite.
Volvida mais uma importante etapa de maturação da VGO, os
próximos concertos, que se espera virem a ocorrer com mais frequência
do que os anteriores, virão certamente confirmar que este é
um projecto com amplo potencial de evolução. E, no seguimento
do que nos tem sido dado a apreciar, é provável que as suas
preocupações assentem no aprofundamento de dois vectores
essenciais – a exploração das inúmeras possibilidades
de desdobramento das várias secções orquestrais,
e a efectiva e eficiente explanação de texturas e nuances
instrumentais.
Ficamos então a aguardar por novos desenvolvimentos. João
Aleluia (Jazz.pt)
A
cada concerto, a VGO / Variable Geometry Orchestra renova-se em graus
que se assinalam e registam entre o ínfimo e quase imperceptível,
e o passo de gigante entre a formulação precedente e aquela
que já fica próxima no horizonte dos nossos desejos de liberdade,
movida por um motor potente que ruge nas suas expressões mais variadas,
criando jogos intermodais de abstracção profunda –
utopia de liberdade plena, reflectida num corpo orquestral com personalidade
em construção, mas em que habitam sinais identitários
próprios.
Neste melting pot da comunidade improvisadora de Lisboa, sucedem-se os
quadros e os momentos de beleza massiva e extravagante. Entre o momento
inicial e o estertor final, evocam-se sons próximos e longínquos,
novas e antigas imagens visuais projectam-se num espaço de grandes
porporções, onde se desenha o nascente e o poente, e em
que a energia explode numa tridimensionalidade espectral que nos sacode
corpo e espírito.
O que fica na memória é uma catedral em que habitam sentimentos
que perduram na partilha da experiência radical, entre a catarse
e o êxtase abrasador. Eduardo Chagas (Jazz
e Arredores)
Foi um Acontecimento! A VGO é um acontecimento!
Foi a primeira vez que a vi. Terei estado no mar ou em Marrocos mas sempre
em lua nova, com certeza...
Foi cataclítico! Uma catarse! Uma Big Ban(g)d!
(Quando dei por mim estava debaixo dum umbral de porta, agarrado a um
beiral, não fosse a casa vir abaixo...).
Para mim, mais do que isto só o Sun Ra em Vilar de Mouros em 1982.
Parecia-me impossivel poder-se chegar tão perto... engano meu,
com a VGO tudo há-de ser possível!!!
Continuemos!
Sempre!
Obrigado. Rui Portugal (Jazz e Arredores)
Foram
boas as propostas apresentadas em série pelo trio que agrupou Alípio
Carvalho Neto, Luciano Vaz e Ernesto Rodrigues para uma sessão
de improvisação livre ao cair da tarde, intramuros da Jazz
Store da Trem Azul, à Rua do Alecrim, em Lisboa.
Aliciante era, à partida, poder assistir em directo à maneira
como os três músicos, com backgrounds diferentes e estilos
muito diversos, iriam suscitar e resolver os problemas postos por esta
especial forma de comunicação e criação musical,
potencialmente reforçada pelo facto de os três nunca antes
terem tocado juntos.
Percursos e discursos pessoais diferentes e no entanto três músicos
com uma característica comum: a vontade de se questionar e de procurar
outras formas de expressão individual e colectiva, enquanto extensões
do trabalho anteriormente produzido, ou como rupturas com métodos
e fórmulas habitualmente praticadas, mercê das novas possibilidades
sonoras que só podem nascer do compromisso que os músicos
estabelecem entre si, tacitamente. O processo é o da comunicação
via improvisação total; o fim, assume uma face dupla: o
da criação musical estimulada pelo ambiente de ampla liberdade
e simplicidade formal; e a entrega ao público, instantaneamente,
dos resultados assim obtidos.
Alípio Carvalho Neto investiu em novas soluções harmónicas
no saxofone tenor, explorando com eficácia técnicas e enunciados
caros a um estilo híbrido de jazz e de improvisação
livre, a caminho de se transfigurar através do enriquecimento da
sua própria linguagem. Luciano Vaz, violoncelista de orquestra
sinfónica (Rio de Janeiro), de passagem por Lisboa, lançou-se
por caminhos de pesquisa sonora que remetem para um universo próximo
da composição contemporânea. Bom improvisador (tive
a oportunidade de assistir a três das suas apresentações
ao vivo em Lisboa, em diferentes contextos e formações),
subtil, delicado e atento aos detalhes do ambiente sonoro geral, que instigava
e ao qual reagia, Luciano Vaz soube gerir com parcimónia esse poder
que está na mão do músico improvisador: o de intervir
e o de saber escutar, para de novo entrar no discurso.
Ernesto Rodrigues, dos três porventura o músico mais familiarizado
com a “teoria” e a prática da improvisação
livre, deu uma importante contribuição para a solidez da
proposta global, introduzindo as nuances e os matizes de cor e textura
que o desenvolvimento das operações pedia, problematizando
a direcção e orientando o fluxo colectivo da improvisação
em trio.
Para a despedida de Luciano Vaz, fechando o ciclo da sua estadia entre
nós, está em curso a preparação de um concerto
final de improvisação livre, com violoncelo, saxofone tenor,
violino, trombone e percussão, a ter lugar esta semana, em Lisboa.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
[...]
Para o fim do festival ficou guardada a actuação da Variable
Geometry Orchestra. Esta orquestra, dirigida por Ernesto Rodrigues, apinhou
o palco da loja Trem Azul com duas dezenas de elementos. Partindo da improvisação
livre, a música segue através das múltiplas sugestões
individuais, quebrando-se nas indicações (breves, sóbrias
mas marcantes) do maestro Rodrigues. A estrutura da instrumentação
deste grupo começa por sugerir uma aproximação ao
free jazz (pela utilização de inúmeros sopros), mas
acaba por enveredar por estéticas variadas – o que é
derivado também da utilização de instrumentos menos
usuais (tapes, acordeão, electrónicas). Se a multiplicidade
de sugestões é enorme, a sua exposição acaba
por ser reduzida, ficando comprometida pela sobreposição
constante das vozes. Ainda assim há espaço para alguns momentos
individuais - Alípio C. Neto, Sei Miguel, Peter Bastiaan ou Ernesto
Rodrigues, por exemplo. Nas diversas formas de música que ali surgiram
sobrepostas, a aposta VGO valeu enquanto laboratório de experimentação
total. Foi um final de risco para um festival que conciliou músicos
consagrados com outros ainda em crescimento, entre o jazz e a improvisação.
Nuno Catarino (Jazz.pt)
Trio
de trombone, guitarra acústica e viola. Mathias Forge (trombone)
e Cyril Epinat (guitarra acústica) músicos franceses de
Lyon, em curta digressão pela Europa (segue-se Barcelona), encontraram-se
com o violinista português Ernesto Rodrigues para uma sessão
musical descontraída que compreendeu dois temas compostos e executados
em directo. Assumida a iconoclastia face às várias tradições
musicais que assentam no uso da melodia e das regras rítmicas e
harmónicas da música ocidental – característica
das novas correntes da improvisação livre – o trio,
refractário ao uso do fraseado convencional, empreendeu a sua jornada
musical tocando os instrumentos em toda a extensão, mais enquanto
artefactos geradores de som, que na sua utilização tradicional.
Tal abordagem incluiu os aspectos periféricos da execução,
remeniscente da musique concrète (sons fragmentados que se aglutinam
para formar um contínuo coerente) ou no granulado digital dos laptops,
transposta, reformulada e adaptada para um ambiente acústico de
baixo volume, a exigir do ouvinte total concentração para
melhor apreciar os interessantes jogos de interacção tímbrica.
Aconteceu terça-feira passada, 30 de Maio, na Trem Azul Jazz Store,
em Lisboa. Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
A
sexta sessão do ciclo “Der Gelbe Klang (O Som Amarelo)”
recebeu a denominação “Contraposições”
e agregou um quinteto de cordas. Foi uma ocasião rara para assistir
ao encontro entre dois dos maiores improvisadores portugueses contemporâneos,
ambos violinistas: Carlos Zíngaro e Ernesto Rodrigues. A estes
dois, juntou-se um trio multinacional: Noid (violoncelo, austríaco),
Ulrich Mitzlaff (violoncelo, alemão) e Miguel Leiria Pereira (contrabaixo,
português).
Ao contrário do que aconteceu nas anteriores, esta sessão
foi completamente acústica - e também despida de complementos
(vídeo/multimédia) - concentrando a atenção
toda na composição sonora. Os músicos participantes
neste quinteto, formado propositadamente para a ocasião, não
deixaram os créditos por mãos alheias, forjando uma sessão
de improvisação de nível superior. Começando
por utilizar uma panóplia de métodos e recursos recrutados
à livre improvisação, a música seguiu por
formas surpreendentemente harmonizadas.
Com os maiores pontos de interesse situados entre a viola de Ernesto e
o violino de Zíngaro, a dupla de violoncelos (Mitzlaff/Noid) expandiu
as camadas sonoras, respeitando as ideias dos colegas mas introduzindo
elementos próprios. O contrabaixo acabou por ser, até pela
própria natureza, o menos interventivo, actuando na sombra em nome
da conciliação colectiva. Trabalhando quase sempre com arco,
os cinco elementos do quinteto foram desenvolvendo as suas ideias assentes
numa lógica colectiva.
Como se guiados por uma estrutura invisível, os músicos
seguiram pelas variações e picos, alcançando um intenso
grau de musicalidade exclusiva. Com uma manifesta consciência histórica,
o quinteto “Contraposições” foi recolhendo inspirações
de épocas e estilos diversos, elaborando elevados níveis
de melodia em organização instantânea. Das várias
sessões promovidas por este ciclo da associação Granular
esta terá sido, sem grandes dúvidas, a mais compensadora.
Nuno Catarino (BodySpace)
Perante
um público interessado e entusiasta, a Variable Geometry Orchestra,
em formato de média dimensão (14 elementos) actuou ontem,
12 de Junho, à noite (22h00) ao ar livre numa praça do Centro
Histórico de Abrantes, no âmbito das festas populares que
ali decorrem de 9 a 14 de Junho, comemorativas dos 90 anos da elevação
de Abrantes a cidade.
Foram executadas duas peças de composição instantânea,
uma de exposição mais demorada e outra muito curta, breve
epílogo a rematar a actuação de cerca de uma hora,
preenchida com longos drones sucessivamente sobrepostos, ricos em tonalidades
quentes. Sons de cordas, saxofones, acordeão, melódica e
clarinete, combinados com as asperezas dos metais e o anguloso da electrónica
(digital e analógica) e da percussão, elevaram a música
a momentos de tamanha intensidade, fervor e clímax sonoro, alternando
com ambientes mais suaves, impressionistas e quase melancólicos,
na descida aos subterrâneos.
De novo à superfície, intervalados por passagens de alto
volume e densidade polifónica, perigosas e ameaçadoras no
seu enunciado, serviram os diferentes andamentos de plataforma para a
moderada exposição solística por dentro e por cima
da massa sonora, explorando as nuances tímbricas dos instrumentos
e a imensa paleta de recursos, tonalidades, movimentos rítmicos
e texturas que caracterizam o som da VGO. Que cada vez mais se refina
e concentra na subtil exploração das imensas possibilidades
da improvisação colectiva, exponencialmente alargadas através
da (re)combinação harmónica de todos os sons válidos
e disponíveis entre as alturas celestes e os infernais abismos.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
Dass
die reduktionistische Improvisation in Lissabon mit dem Label von Ernesto
Rodrigues (*1959, Lisboa) einen Brückenkopf gebildet hat, ist in
BA immer wieder einmal kurz aufgeblinkt, mit 23 Exposures (CS 003), Ficta
CS 005), Assemblage (CS 007), Tidszon (CS 014) & Kunststoff (CS 017).
Neben Arbeiten der Labelmacher selbst, tauchten dabei Namen wie UNSK,
Martin Küchen und Birgit Ulher auf. Was bisher aber nur Vermutung
war, ist nun Gewissheit, Creative Sources hat sich zu einem kleinen Paralleluniversum
der ‚stillen‘ Musik entwickelt, zu einem in Portugal lokalisierten,
aber weltumspannenden Sammelbecken für Experimente am Rande des Hörbaren
und des Beinahenichts. Dazu mit einem Hausdesign, meist von Carlos Santos,
das feine Entsprechungen für die Klangwelten zu finden versucht.
(Bad Alchemy)
A
versão da Variable Geometry Orchestra que actuou sábado,
23 de Junho de 2006, no Teatro Nacional D. Maria II, no âmbito do
ciclo "Músicas no Átrio do TNDM II, à Meia-Noite",
deu bem a medida da reacção química que se produziu
durante os perto de 45 minutos que demorou a exposição de
música composta, harmonizada e executada em directo, sob a direcção
de Ernesto Rodrigues. Ernesto parametrizou a música através
de breves indicações dadas aos executantes sobre tempo,
dinâmicas e intensidade requeridas em cada um dos andamentos, desde
o início marcado pelo sincopado das baixas frequências da
electrónica de Adriana Sá, até à grande massa
sonora que explode, estilhaçando em todas as direcções.
Free jazz e improvisação orquestral ao serviço da
reinvenção do conceito de big band. Catarse colectiva apontada
em direcção ao espaço, com os mais diversos apontamentos
pelo meio, linhas cruzadas e sucessivas de duos, trios, quartetos, a que
se foram adicionando outros instrumentos, num trabalho colectivo de grande
envergadura.
Nessa medida, é absolutamente fascinante sentir o chão a
tremer debaixo dos pés, como se a música irrompesse do centro
da Terra e explodisse magnífica diante dos músicos e do
público, que enchia por completo a sala. Espaço que chegou
a ser exíguo para conter os infindável labirinto de corredores
harmónicos, a luxuriante selva de texturas que naturalmente se
agrupam em estruturas que são elas próprias momentos de
improvisação colectiva de elevado calibre, que abriram espaço
para breves intervenções solísticas de Jorge Lampreia
(flauta e saxofone soprano), Alípio Carvalho Neto (saxofone tenor)
e Sei Miguel (trompete de bolso), a partir das quais o grupo, ouvindo
e reagindo às indicações, extrapolou para os mais
diversos clusters de associações tímbricas, até
tudo se diluir na grande voz – energia assustadora, beleza primitivista
e sofisticada na sua complexa simplicidade. Música que transcende
os seus próprios limites, montada numa arquitectura sonora que
se eleva às alturas, para depois implodir e retomar ao ponto em
que se lança a primeira pedra. Vida, liberdade e celebração.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
«Um
concerto da VGO é um acontecimento cada vez mais intenso, marcante
e exultante! Desta vez, foi a segunda coisa mais importante que me sucedeu
desde o último concerto da VGO que vi, na Trem Azul (e que tinha
sido o primeiro). Já agora, digo que a coisa mais importante que
me sucedeu desde então foi o adiamento sucessivo da partida do
meu navio, e poder ter estado ontem a ouver um dos maiores acontecimentos
em música que alguém poderá presenciar!!! A todo
o pessoal OBRIGADO, pela música, bem-estar e satisfação
proporcionada!!! E que estas fotos, singela colaboração
e agradecimento meus, vos revejam nesse acontecimento enorme! Já
posso ir descansado e contentíssimo para a Polónia –
e já nem os buracos do navio e os riscos esforçados me atormentarão!
Um abraço a todos e VGO Sempre!!!» – Rui
Portugal (Jazz e Arredores)
Com
as duas últimas saídas ("Intersecting a Cone with a
Plane" (cs069), do trio Ricardo Arias/Günter Müller/Hans
Tammen, e “Alud" (cs070), da dupla ibérica Pablo Rega
e Alfredo Costa Monteiro, a editora de Ernesto Rodrigues, Creative Sources
Recordings, perfaz o número redondo de 70 títulos colocados
no mercado. É obra! Sobretudo num segmento – o da chamada
nova música improvisada – em que os escolhos, atenta a putativa
“dificuldade” do produto, são bem maiores que os vividos
no mercado do jazz, pois escassíssimas são as recensões
ou referências críticas nos media, a imprensa, a rádio
ou a televisão incluidos, que, por junto, nem meia nota de rodapé
apresentam. Cá na Paróquia, atrasada, a acefalia da crítica
“institucional”, jovem ou bastante usada, foge disto como
o diabo da cruz, mais por preconceito, tacanhez ou ignorância, que
por quaisquer razões intrínsecas ao produto musical. Nesta
matéria, estamos conversados.
Num trabalho de paciência e dedicação, mercê
de uma escolha criteriosa do produtor e da tomada de decisões editoriais
baseadas numa escuta atenta e ponderada, a Creative Sources Recordings
publicou setenta títulos cuja qualidade média é bastante
elevada, e assim nos dá a oportunidade de nos familiarizarmos com
boa parte do que melhor e mais esteticamente relevante se vai passando
no mundo da moderna música improvisada. E isso, por si só,
deve constituir motivo de orgulho para qualquer cidadão decente,
despreconceituoso e musicalmente interessado. Nota alta para o trabalho
de Carlos Santos, autor da quase totalidade das capas, que interpretam
e acompanham graficamente o conteúdo do produto que embrulham.
Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
[...]
Likewise, the work of Lisbon-based duo Ernesto Rodrigues (viola) and Manuel
Mota (guitar) begins with brief chatter or strings and rings, and swells
to a rich musical conversation. [...] Kate Silver
(Seattle Weekly)
Hello
Pessoal!
Mais um acontecimento inexcedivel, ontem, com a VGO!!!
Não tão cataclítico como na minha primeira vez (Trem
Azul), nem tão telúrico
como na segunda (Teatro D. Maria II), mas como numa montanha russa, tão
variado,
imprevisto, intenso e até simples, cheio de oportunidades individuais,
a
mostrar que a calmaria também existe e que o silêncio, ou
quase, também é
possível; que num todo se transformam num arrebatamento planante,
a terminar
numa praia, com um largo sorriso de contentamento e felicidade por mais
este glorioso acto desta nossa orquestra de variáveis geometrias.
Venham mais!!
SEMPRE!
Um abraço a todos e OBRIGADO! Rui Portugal
(Jazz e Arredores)
Quanto
maior for a memória do ouvinte, mais vasto é o vasto acervo
de memórias do jazz e da música improvisada reconhecíveis
no nomadismo da Variable Geometry Orchestra (VGO), todo um amplo espectro
de sinais de música moderna, actuais e de outros tempos, que lhe
servem de inspiração e motor interno. Sob a direcção
de Ernesto Rodrigues, a VGO, actuando um vez mais no palco da Galeria
Zé dos Bois, em Lisboa, pôs em prática o seu trabalho
de modelagem sobre massa sonora compacta e homogénea, entrecortada
por breves solos, pontos de partida para “conversas” no interior
de pequenos conjuntos, secções organizadas como naipes circunstancialmente
subdirigidos por Patrick Brennan, à direita, e Alípio C.
Neto, do lado esquerdo. Jogos interactivos de improvisação,
linhas melódicas, permutações, ensaios de contraponto,
simultaneidade, provocação e resposta, contraste e aproximação,
grito, transe, imprecação, dança caótica de
cordas, teclas, sopros e electrónica, batidos por fogachos, labaredas
rítmicas, explosões de címbalos, ou simplesmente
dispostos sobre as brasas de percussão. Preparações
alternando entre a ocasional chuva de meteoritos sobre os telhados da
vizinhança e o bombardeamento sonoro em larga escala, acentuado
pelo uso de notas longas, exacerbação súbita, paroxismo
transformado em drones fantasmagóricos que se fundem em extensões
de magma sonoro, a perder de vista. Apostado em aprofundar o trabalho
sobre variações dinâmicas – uma das vias de
orientação a seguir na incessante busca de diferentes soluções
para este puzzle gigantesco –, a orquestra consegue ser tão
eficaz na acção devastadora do seu poderio sonoro, como
na subtil e delicada enunciação, emergente da estrutura
massiva e dos profundos alicerces em que se estrutura o vasto campo de
experimentação e de improvisação colectiva.
Com a VGO a viagem é sempre longa e sem escala. Em cima do palco,
mais de 30 músicos pintaram a manta e detonaram cargas de profundidade
em longos crescendos de intensidade, curvas de frequências que estimulam
neurónios e insuspeitas secções da alma, sem no entanto
revelar o núcleo essencial do segredo que colectivamente transportam
e que a ninguém individualmente é dado o poder de conhecer.
Qual nave que se projecta no espaço, que visa ir cada vez mais
longe na exploração do desconhecido, a Variable Geometry
Orchestra, ultrapassando os seus próprios limites musicais e os
obstáculos físicos do meio que a suporta, permite ver e
sentir o mistério que está para lá de um ponto qualquer.
Não se sabe como, nem para onde se vai a seguir; mas o que quer
que seja que lá está emite sinais de vida.
Livre, selvagem e surpreendente. Eduardo Chagas
(Jazz e Arredores)
A
apresentação do mais recente título da discografia
de Ernesto Rodrigues marcou o regresso às actuações
ao vivo, após um breve interregno estival, de alguns dos mais activos
músicos da “cena improvisada” de Lisboa.
Agendado para uma terça-feira de Setembro num espaço pouco
habituado a acolher eventos deste tipo, a Galeria Armazém (Bairro
Alto), o programa proposto consistia, numa primeira parte, na actuação
dos três protagonistas do disco Drain (com Ernesto Rodrigues na
viola, Mathieu Werchowski no violino e Guilherme Rodrigues no violoncelo),
aos quais se juntariam, numa segunda parte, o contrabaixista Hernâni
Faustino e o percussionista Monsieur Trinité.
O trio que deu início ao concerto cedo deu mostras do porquê
da gravação de um disco em conjunto.
Desde o primeiro minuto que Werchowski e Ernesto demonstraram um entendimento
notável, um magnetismo que foi devidamente secundado pelo outro
Rodrigues, um violoncelista que, se inicialmente deixou transparecer um
certo alheamento, preferiu manter-se afastado das mirabolantes geometrias
que se teceram entre violino e viola, antes se concentrando na configuração
de microscópicos apontamentos e delicadas estridências, assumindo-se
assim como um inesperado instigador de novas situações e
ideias musicais.
Na segunda parte, com as entradas de Hernâni Faustino e Monsieur
Trinité, o panorama foi radicalmente diferente. Com efeito, o alargamento
do espectro tímbrico e, em particular, a participação
de um contrabaixista de raiz e inspiração essencialmente
jazzísticas, permitiram o esboçar de um ténue edifício
harmónico. Esta estrutura de fundações efémeras
acabou por conferir uma maior previsibilidade à acção
musical, que por ora se desenvolvia à luz de binómios de
tensão/distensão e densidade/rarefacção. Uma
nota no entanto para o apoteótico final deste set, com Ernesto
e Werchowski, num derradeiro assomo de cumplicidade e intuição,
a conduzirem o esforço colectivo para um belo e intenso clímax.
João Aleluia (Jazz.pt)
There
seems to have been a slight breather in the production schedule of the
excellent Portuguese label Creative Sources. But, as spring has ceded
first to summer and now autumn, Ernesto Rodrigues’ imprint is in
full bloom again. Jason Bivins (Bagatellen)
Ces
quatre cédés Creative Sources présentent différentes
collaborations du responsable du label, le violoniste et altiste Ernesto
Rodrigues, avec son fils Guilherme au violoncelle et à la trompette
de poche. Comme très souvent chez Creative Sources, pochettes très
soignées et environ une quarantaine de minutes. Prise de son excellente
et très « rapprochée » donnant un
relief étonnant aux manipulations instrumentales « bruitistes ».
Oranges (CS 068 -2006), car Bortoukal signifie l’orange (le
fruit) en arabe, de même en grec « portokali ».
Portugal, vous y êtes. Cette équipe portuguaise qu’on
entend au grand complet avec Oren Marshall dans Kinetics déplace
le centre de gravité de l’improvisation radicale vers le
sud. Les frère et sœur Christine et Sherif Sehnaoui (sax alto
et guitare dans Undecided) sont de Beyrouth, tout comme Bechir Saadé
(clarinette basse et ney dans Oranges). Wade Matthews vit à Madrid
et son passage à Lisbonne est l’occasion d’une belle
rencontre. Les deux clarinettes basses et les flûtes de Matthews
et Saadé insufflent une véritable sensualité aux
bruissements secs et sophistiqués des Rodrigues. Les interventions
électroniques de Matthews ajoutent une dimension dynamique bienvenue
à part égale avec les instruments. Cette musique mérite
vraiment plusieurs écoutes, malgré sa simplicité
apparente.
Undecided (CS 072 -2004) mélange les frottés, grattés,
percutés etc… du violon et du violoncelle des Rodrigues avec
la guitare de Sehnaoui jusqu’ à l’unisson bruitiste.
On distingue les égosillements du sax alto et la vibration de l’air
du bocal qui clapotte dans cette mare improbable. J’aime particulièrement
la fin de la première plage (Sitting on a Fence). On est là
très loin de la ligne claire de Drain (CS 075 -2006). Graduation,
la première plage est un remarquable exercice vibratoire des sons
les plus ténus qui mène à un lent glissando expressif.
Ce trio, où on distingue clairement les sons de chaque instrument
sans trop savoir lequel, est dans le prolongement des albums de l’année
2002 d’Ernesto Rodrigues. Sudden Music (CS 002), Ficta (CS 005),
Assemblage (CS 007) et le quartet de cordes de Contre Plongée (CS
011- 2003) mettaient en valeur les attaques très particulières
des cordes du violon et du violoncelle jusqu’au bord du silence.
Un son sec, toute la gamme des col legno, coll’arco (sous tous les
angles), sul ponticello, sul tasto, avec la mèche, saltellato,
battuto, des pinçages, piquements, frottages, harmoniques, l’étirement
du son vers un aigu inouï, crissant, évocation du travail
des boisselleries dans un atelier d’ébénistes sadiques.
Le violon est préparé sur la touche, les cordes vibrent
peu, l’archet frotte la pique, les clés, le chevalet, les
cordes « avant » les doigts sur la touche. Le ventre
de l’instrument crie ou murmure. Une approche sonore inspirée
de la musique électronique, reproduisant ses nuances spécifiques.
Drain, c’est la quintessence de l’art des Rodrigues illuminé
par des pointes de lyrisme (Mathieu Werchowski ?). J’ai
toujours le sentiment que les instruments à cordes de la famille
des violons se révèlent mieux leur nature profonde qu’en
restant entre eux. Drain le conforte une fois de plus. Le très
beau Light transite depuis les vitesses concurrentes de chacun à
travers des frottements ralentis à l’unisson. Dans la galaxie
des improvisateurs radicaux éclairés par l’ex-réductionnisme
de Berlin (Axel Dörner, Burkhard Beins), l’ex-London New Silence
(Rhodri Davies, Mark Wastell, Phil Durrant), la personnalité
de Radu Malfatti et la quartertone trumpet de Franz Hautzinger, Ernesto
et Guilherme Rodrigues sont des personnalités de choix et cet album
en est une excellente illustration.
Ernesto a une longue expérience de la musique contemporaine qui
l’a mené à l’improvisation totale. Il en découle
une véritable réflexion esthétique. Bien qu’ils
aient des idées et une approche très pointues, les deux
Rodrigues s’adaptent avec une véritable ouverture à
la musique d’autres improvisateurs. C’est manifeste dans Drain
où leurs manipulations bruitistes s’ouvrent naturellement
à la personnalité de Mathieu Werchowski. On l’entend
aussi dans Oranges, Undecided et Kinetics. Kinetics (CS 043 -2004) est
le volet suivant de l’échappée soft-noise entamée
dans les albums Kreis (CS 020 -2004) et Diafon (CS 041-2004). Le quintet
post-industriel, où l’air du tuba de Robin Hayward complète
les sons gris de Carlos Santos, électronique et graphiste maison,
évolue avec une belle logique ponctuée de silences et parsemée
d’événements sonores concis. On retrouve le percussionniste
José Oliveira, présent dès Multiples (CS 001-2000),
leur premier album, frottant toujours aussi discrètement la surface
de ses peaux et cymbales en symbiose avec ses acolytes. Un art de la retenue
et de l’éclatement contrôlé des formes dans
lequel les deux cordistes s’intègrent au point qu’on
oublie l’instrument. Huit plages – indices enchaînent
ou séparent les mouvements d’un flux sonore qui s’apaise
et s’agite comme dans un battement de cil. Les instruments se mélangent
et se distinguent les uns des autres, ajoutant ou soustrayant des timbres
au paysage sonore, unique interlocuteur de leurs gestes ralentis. L’interactivité
dialoguiste de l’improvisation libre « traditionnelle »
est ici bannie au profit du pendant musical d’un surfacisme pictural
privilégiant les gris, les bruns, les noirs. Au diable, les inflexions
suggérant la parole et le chant, l’ivresse de la vitesse
et les couleurs des fleurs. En considérant l’évolution
de la musique d’Ernesto Rodrigues et de sa fratrie à travers
les compacts Creative Sources, on peut dire que Drain, leur dernier, est
tout à fait bienvenu. Ce serait aussi la meilleure introduction
à l’univers de nos deux cordistes portuguais pour ceux qui
n’ont pas encore eu l’occasion de les découvrir. Jean
Michel Van Schouwburg
Mais
um capítulo do trabalho sonoro de grande magnitude que a Variable
Geometry Orchestra tem vindo a fazer na exploração das múltiplas
conexões entre experimentalismo contemporâneo, electroacústica
e free jazz. Os vários andamentos revelam aspectos que vão
da delicadeza à grande massa, percursos de progresso de uma realização
para outra, espectro emocional sem limites. A caminho de encontrar uma
nova linguagem que há-de dominar as tensões que se jogam
em cada momento, o jogo de forças centrífugas e centrípetas
que se organizam espontaneamente em blocos multiformes, desfazem-se, reagrupam-se
de novo e são já outras. Transcendendo formas e estilos,
a VGO bebe em todas as fontes e tece uma longa teia de significados, algo
que se estrutura no momento a partir do som puro. Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
[…]
A primeira parte esteve a cargo do violinista Ernesto Rodrigues, que teve
a companhia do filho Guilherme Rodrigues (violoncelo) e de Pedro Rebelo
(laptop/electrónicas). Apesar do concerto não ter sido longo
- cerca de meia hora - os músicos explanaram concretamente as suas
ideias, desenvolvendo texturas e micro-sons a partir das abordagens pouco
convencionais aos instrumentos. A electrónica de Rebelo foi o principal
foco de interesse do trio, particularmente pelo modo como se adaptou ao
universo da música reducionista dos Rodrigues – atenção
à vaga de discos que acabam agora de ser editados na Creative Sources.
[…] No final do solo de Rowe o trio luso subiu ao palco para uma
sessão em conjunto com o inglês. O laptop ficou desligado
e Rebelo atacou as cordas do piano, a dupla Rodrigues explorou as madeiras
dos instrumentos respectivos e Keith Rowe deixou-se estar discreto, com
um ou outro pormenor. Conclusão: a cena experimental está
bem viva e recomenda-se. Nuno Catarino (Bodyspace)
Orquestra
de Geometria Variável? Tudo menos quadrados. Mentes abertas. Mais
de 30 músicos (de alto gabarito individual) juntam-se para criar
fusão, rebelião, superação.Só porque
sim. Só porque sai. Só porque soa. Violino, viola, violoncelo,
baixo, guitarra portuguesa, voz, trombone, tuba, clarinete, vários
trompetes e saxofones, guitarra eléctrica, acordeão, electrónica,
didgeridoos, percussão, bateria... Uma salada musical frenética?
Um agri-doce nomadismo musical de comunhão e uma ecléctica
partilha entre instrumentos que querem ir mais alto, só por ir
e sem olhar a destinos concretos. Não sabem de onde vêm nem
para onde vão. Nem importa. Eles são liberdade criativa
selvagem e explosiva, ali roçar o génio esquizofrénico.
Se parecer que foram apanhados a meio de uma viagem inter-galáctica,
não estranhem. Entrar na Trem é entrar na nave. Garantido
é que vão ver estrelas. Joana (LeCool
Magazine)
Uma
editora na alvorada do século XXI
Indicam as estatísticas que Portugal não é um país
de empreendedores.
Por empreendedorismo entende-se a capacidade para empreender, para tomar
iniciativas, e entre os aspectos característicos de uma cultura
empreendedora contam-se a auto-confiança, a aptidão para
criar, e a propensão para assumir riscos e inovar.
Se de tais asserções são carentes uma diversidade
de sectores de actividade em Portugal, o mesmo dificilmente poderá
ser defensável no campo do jazz e das músicas criativas
neste país produzidas. Com efeito, e sem nos referirmos propriamente
à praxis do jazz e da improvisação, que são,
por natureza, práticas musicais que incitam ao risco e à
inovação, o surgimento de um conjunto de projectos editoriais
“made in Portugal” neste início de século tem
sido um fenómeno que coloca Portugal – pelo menos neste domínio
– a par dos países mais empreendedores da Europa.
Criada em 2001 por iniciativa do violinista e improvisador Ernesto Rodrigues,
a Creative Sources Recordings é, no plano contemporâneo,
uma das mais importantes editoras portuguesas.
A principal motivação que subjazeu à criação
da Creative Sources foi a necessidade premente de um conjunto de músicos
estabelecidos em Lisboa, na altura praticamente marginalizados e esquecidos
pela indústria discográfica nacional, em divulgar o trabalho
que até aí vinham desenvolvendo.
A verdade é que, dois anos volvidos sobre o arranque do projecto,
o âmbito de edição da editora se alargou, extravasando
pela primeira vez limites territoriais: primeiro com o disco “Ura”
do trio de origem catalã I Treni Inerti, e depois com a edição
do projecto No Furniture dos alemães Axel Dörner, Kai Fagaschinski
e Boris Baltschun.
Tendo a Creative Sources surgido em 2001, portanto no auge da ortodoxia
da “nova” forma de música improvisada e semi-improvisada
que no final do século XX havia emergido em algumas capitais europeias
– e à qual se tem atribuído as designações
de “reducionismo”, “lowercase” e “near silence”
– não foi de estranhar que tivesse adoptado alguns projectos
internacionais conotáveis com esta “nova” vertente
estética.
No entanto, o que poderia numa fase inicial parecer a edição
episódica de projectos de músicos estrangeiros, veio pelo
contrário a revelar-se um eixo fundamental na estratégia
editorial da Creative Sources, e um “driver” essencial para
a sua afirmação internacional.
A pouco e pouco, as mais destacadas cenas do chamado reducionismo –
Londres, Berlim, Tóquio e Viena – foram encontrando representação
na editora, mas também se abriram portas a outros centros menos
divulgados, como Paris, Barcelona ou Beirute.
Será contudo necessário sublinhar que a Creative Sources
é uma editora que não se circunscreve a um balizamento estético
rigoroso e inexoravelmente predefinido. Com efeito, para além de
uma sequência de projectos mais ou menos alinhados com as tendências
reducionistas acima mencionadas, a editora tem também abraçado
algum jazz de inclinação free (atente-se nos trabalhos de
Stefan Keune, Lars Scherzberg ou Nush Werchowska), algumas realizações
na área da improvisação electroacústica (veja-se,
por exemplo, os discos de Günter Muller, Jason Kahn ou Grundik Kasyansky),
assim como uma série de outros músicos cujas idiossincrasias
não os permitem associar a escolas ou a correntes específicas.
Hoje em dia, e seis anos após a edição do seu primeiro
opus, a Creative Sources continua a afirmar-se como um projecto editorial
sólido, consolidado e auto-suficiente. E, gozando de um estatuto
que a permite considerar como o barómetro das novas tendências
da música improvisada, a Creative Sources salienta-se ainda das
demais editoras da especialidade por ser uma das mais prolíficas
da actualidade, contabilizando-se no seu catálogo, em Dezembro
de 2006, o impressionante número de 80 títulos publicados.
Depois desta breve panorâmica sobre a editora, passamos de seguida
a uma caracterização mais aprofundada das suas propostas,
tendo em atenção àquelas que consideramos ser as
suas principais linhas de força: trabalhos de músicos portugueses
(1), projectos de músicos estrangeiros (2) e solos instrumentais
(3).
Devido a restrições de espaço, apenas nos debruçaremos
neste número sobre o primeiro eixo de actividade da Creative Sources
– trabalhos de músicos portugueses – deixando a análise
dos eixos remanescentes para a próxima edição da
Jazz.pt.Trabalhos de músicos portugueses – a afirmação
de uma cena musical nacional
A vida da Creative Sources é indissociável do trajecto artístico
que o seu criador, Ernesto Rodrigues, tem vindo a construir desde o momento
em que teve a iniciativa de avançar com este projecto editorial.
Efectivamente, ao participar em 15 dos 80 títulos já editados,
não será um exagero se dissermos que os seus discos constituem
a espinha dorsal da editora.
Abarcando um período de aproximadamente seis anos (de 2000 a 2006)
– e pese o facto de se tratar de um espaço de tempo relativamente
curto para que a sua evolução estética e criativa
possa ser segmentada em etapas claras e inequívocas – podem
destacar-se dois momentos fundamentais no percurso de Ernesto Rodrigues.
O primeiro corresponde ao final do ano de 2001, um período de mês
e meio de elevada actividade e que conduziu à gravação
de 3 CDs. Este “momento” marca a transição de
uma abordagem fortemente enraizada na “escola” inglesa de
improvisação para uma postura demarcadamente focada no silêncio,
austeridade e contenção do discurso musical.
O segundo “momento” corresponde ao ano de 2004, o ano da maturidade
e da definitiva emancipação estilística de Ernesto
Rodrigues, e que também se consubstanciou na fase de maior fertilidade
discográfica do músico – datam deste ano cinco dos
quinze trabalhos da sua autoria editados pela Creative Sources.
Tendo presente a importância destes momentos na actividade de Ernesto
Rodrigues, arriscamos nas linhas que se seguem uma panorâmica sobre
o seu percurso, socorrendo-nos para esse efeito de alguns exemplos musicais.
Gravados com sensivelmente um ano de diferença, em 2000 e 2001
respectivamente, os dois primeiros trabalhos de Ernesto Rodrigues na Creative
Sources – Multiples e 23 Exposures – caracterizam-se pela
influência da “insect music” desenvolvida pela primeiríssima
geração de improvisadores britânicos, muito em particular
o Spontaneous Music Ensemble, mas também Evan Parker e Derek Bailey.
Ambos os discos partilham, assim, de um conjunto de linhas orientadoras
comuns: a configuração em trio, a preferência pela
miniatura e o desenrolar da acção musical pautada por uma
abordagem reactiva, convulsa e fragmentária.
É também de ressalvar o facto de a formação
de Multiples apresentar dois dos mais assíduos colaboradores de
Ernesto Rodrigues: o percussionista José Oliveira e o seu filho
Guilherme Rodrigues, destacando-se neste último, que à data
da gravação contava apenas 12 anos de idade, a forma notável
como se identifica com o espírito da criação musical
espontânea.
Um mês decorrido sobre o registo de 23 Exposures, seguir-se-iam
as gravações de dois trabalhos muito importantes na discografia
de Ernesto Rodrigues – Sudden Music e Ficta. Entramos no “momento”
de transição a que nos referíamos acima. O silêncio
começa a ser integrado de forma deliberada e consciente na música
de Rodrigues e seus pares. Peças de curta duração
cedem lugar a extensas e espaçosas composições espontâneas.
Sobre-estimulação, verticalidade e abundância discursiva
deixam de se manifestar, soçobrando perante a primazia da tranquilidade,
horizontalidade e de longos momentos no limiar do audível.
Se Sudden Music corresponde na perfeição a estas especificidades,
Ficta vai um pouco mais além: crepitante e intenso, este é
um trabalho de natureza mais corpórea, e onde é conseguido
um melhor balanço entre som e a (quase) ausência do mesmo.
Em ambos os registos, José Oliveira revela-se um interveniente
de seminal preponderância. Libertando-se de um “modus operandi”
de inspiração eminentemente britânica (Roger Turner,
Tony Oxley e o próprio John Stevens), Oliveira surge aqui mais
próximo de percussionistas como Lê Quan Ninh ou Garth Powell,
denotando uma aproximação cintilante e cristalina aos objectos
percussivos.
É notório nestes dois discos (e nos que se lhes seguiram)
um certo alinhamento com as práticas reducionistas que atingiam
por esta altura na Europa o ponto de maior estoicismo e abstinência.
No entanto, não deve ser descurada a enorme importância da
música erudita do século XX no trabalho de Ernesto Rodrigues,
sobretudo dos compositores da escola de Nova-Iorque (muito em particular
John Cage e Morton Feldman) mas também de criadores europeus como
György Ligeti ou Helmut Lachenmann.
Os dois anos seguintes, 2002 e 2003, iriam ser de consolidação
das experimentações estéticas empreendidas em Sudden
Music e Ficta. Da actividade neste biénio resultaram quatro discos:
Assemblage, Cesura, Contre-Plongée e Dorsal. Desta sequência
de trabalhos, o destaque vai, sem quaisquer dúvidas, para Cesura,
um quarteto constituído por Ernesto e Guilherme Rodrigues, Alfredo
Costa Monteiro e Margarida Garcia.
Das inúmeras interpretações que se podem fazer do
título desta obra – que pressupõe a existência
de um corte, de uma cisão com alguma coisa – a mais evidente
é a exclusão do até aí alter-ego de Ernesto
Rodrigues, o percussionista José Oliveira. Implicação:
se o distanciamento perante as noções convencionais de melodia
e harmonia era já um dado adquirido, consubstanciou-se agora a
ruptura com qualquer veleidade rítmica que pudesse ainda subsistir.
Composições de configuração anamórfica,
sons que aparecem e se desvanecem num átimo, trepidações
e rumores – são estas algumas das propriedades predominantes
neste trabalho. Cesura resulta assim num álbum mais telúrico
e sombrio que qualquer dos anteriores, e é também aquele
onde o exercício de uma abordagem textural e reducionista atinge
o zénite.
2004 viria a ser um ano charneira no percurso de Ernesto Rodrigues. Este
ano assinala o momento da definitiva autonomização do músico
em relação às determinações estéticas
de correntes musicais específicas (sejam estas os “princípios”
de acção-reacção da escola britânica
ou o near-silence radical da cena “onkyo” japonesa), o que
se traduziu, fundamentalmente, na exploração de um campo
de possibilidades mais alargado e no desenvolvimento de um corpus de trabalhos
de maior diversidade estilística.
O aumento das colaborações de Ernesto Rodrigues com músicos
estrangeiros e a reincorporação de dispositivos electrónicos
nas suas formações – cuja ausência remontava
à gravação de Self Eater and Drinker, com Jorge Valente,
em 1999 – muito contribuíram para o enformar deste rumo evolutivo.
É importante sublinhar que nas duas primeiras gravações
de 2004, Kreis e Kinetics, a adopção da electrónica
não se materializou numa ruptura com os predicados dos trabalhos
anteriores.
Carlos Santos, cuja participação na Creative Sources se
resumia até aí ao grafismo dos discos da editora, foi quem
se encarregou, nestas duas obras, da componente electroacústica.
Sobretudo em Kinetics, um quinteto com Ernesto e Guilherme Rodrigues,
Oren Marshall, José Oliveira e o próprio Carlos Santos,
sai reforçada essa ideia de continuidade com os trabalhos precedentes.
Sente-se mesmo um certo construtivismo na abordagem conjunta, um doseamento
equilibrado de esforços e sensibilidades. Carlos Santos, pelas
linhas subtis e subliminares que tece a partir do seu laptop, é
um elemento primordial na ligação entre os vários
músicos, também ele contribuindo de forma exímia
na elaboração do assemblage tímbrico de aparência
cuidadosa que caracteriza este Kinetics.
Ainda a propósito de Carlos Santos, é preciso não
esquecer o trabalho ímpar que este tem vindo a desempenhar enquanto
responsável pelo design gráfico da Creative Sources, uma
correspondência feliz entre som e imagem que marca indelevelmente
a editora desde o seu primeiro opus.
Os dois registos que se seguiram, Diafon e Undecided (A Family Affair),
diferem substancialmente dos anteriores. A principal novidade aqui consiste
na introdução, pelo menos de uma forma mais aberta e acentuada,
de princípios de distorção, ruído e volume.
Diafon, um trio com Ernesto Rodrigues, A. Costa Monteiro e Barry Weisblat,
é, até à data, o disco mais “anti-académico”
de Rodrigues. Para este efeito, e por oposição aos caminhos
explorados em Kreis e Kinetics, a manipulação electrónica
preconizada por Barry Weisblat soa impura e imperfeita, conferindo ao
espaço acústico uma densidade abrupta e dilacerante.
Embora num plano distinto, a mesma postura parece estar presente em Undecided.
Neste disco, onde os Rodrigues se juntam a Christine e Sharif Sehnaoui,
há efectivamente uma aproximação às concepções
de “noise”, sincretismo instrumental e distorção
da matéria sonora que encontramos em Diafon. Pleno de intensidade
e entrega, sente-se a omnipresença de uma força inquietante
e opressora, que pode inclusivamente ser entendida como uma premonição
das fatalidades bélicas que viriam a assolar o país de onde
são originários os Sehnaouis, o Líbano...
A concluir este périplo pela discografia de Ernesto Rodrigues,
passamos em seguida às gravações de data mais recente,
Oranges e Drain, ambas registadas no ano de 2006.
Oranges é um quarteto que para além dos habituais Rodrigues
conta nas suas fileiras com o libanês Bechir Saade e o americano
radicado em Madrid Wade Matthews.
Contrariamente à ideia que o título poderá deixar
transparecer, este é o álbum mais ecléctico e colorido
do violinista, facto este que não será alheio aos diferentes
backgrounds musicais e culturais que aqui se confrontam e entrecruzam.
Não obstante esta heterogeneidade de referências, há
uma intersubjectividade notável entre os músicos, uma compreensão
mútua das oposições e correspondências entre
os respectivos instrumentos, em suma, uma identificação
estética permanente e fecunda.
Finalizamos então com Drain, um trio em que o violinista francês
Mathieu Werchowski se junta a Ernesto e Guilherme Rodrigues. Este trio
de cordas é, em certa medida, um dos trabalhos mais surpreendentes
de Rodrigues. Abundante em intersecções, deslizamentos e
corridas ziguezagueantes, a exuberância discursiva que encontramos
neste registo traz à memória a “insect music”
dos seus primeiros trabalhos. Contudo, o aspecto que maior admiração
poderá causar é o facto de Ernesto Rodrigues, um músico
anti-virtuosístico por natureza, fazer aqui a demonstração
mais categórica da sua superlativa técnica instrumental
(ainda que seja justo reconhecer o mesmo em relação a Werchowski).
Podemos dizer, à guisa de balanço, que três características
fundamentais sobressaem dos seis anos de actividade de Ernesto Rodrigues
aqui recenseados – adaptabilidade, solidez e capacidade em surpreender
e inovar. No entanto, o maior mérito que se lhe deve reconhecer,
e que encontra um natural reflexo nos discos acima analisados, é
o importantíssimo papel que este tem desempenhado na dinamização
da cena improvisada nacional, seja pela estimulação da comunidade
de músicos local, seja por via das inúmeras colaborações
com músicos estrangeiros. João Aleluia
(Jazz.pt)
VGO
The hot and unforgiving Sahara wind decided to answer the calls of Nirankar
Khalsa and the Sudani gang by paying us a visit! The result was a thermometer
rise way above the 90’s. On this occasion the VGO went to play in
the black curtain clad room of the BOMBA SUICIDA where the many fans,
scattered throughout the floor, did little to alleviate the heat surge.
The band was closing the night so it had a scarce 30 min. to show what
it was worth. The music sounds just like the thick atmosphere in which
it was played: densely textured and hot! Ibson Barreto
da Silva
Geometrias
regulares e irregulares na forma e no conteúdo, fluidez, densidade,
respiração, elementos visuais associados à progressão
sónica, reinvenção acústica espácio-temporal.
Vocabulário e pensamento musical colectivo feitos de muitas linguagens
convergentes que brotam duma multitude de fontes. Os sinais instigam os
acontecimentos, a trip de energia. Naipe de cordas, secções
de sopros e de percussão, electrónica de gratinados e ondas
oscilantes, pulsão jazz – tudo revisto e aumentado no que
ao potencial de contraste tímbrico e textural diz respeito. Música
que, a um tempo, transporta em si um exercício de memória,
repristinação de vários segmentos do passado –
do seu próprio passado – e de página em branco, o
momento anterior à consciência.Tribalismo e tentação
afro, o drone que arrepia, sons que nascem e se desvanecem sem se saber
de onde nem por onde, interpenetração de motivos, nuance,
tensão rítmica, explosão, policromia, climax, som
total. Um mundo de sonoridades inquietantes que instauram a perplexidade.
Outro concerto da Variable Geometry Orchestra, sinfonia para improvisadores
envolvidos no processo de ouvir e transformar. Eduardo
Chagas (Jazz e Arredores)
Em
seis anos de actividade editorial a Creative Sources Recordings afirmou-se
no plano internacional como uma das mais relevantes etiquetas especializadas
nas novas tendências de improvisação. Com mais de
oitenta discos editados até ao presente momento, a editora fundada
e dirigida por Ernesto Rodrigues vem documentando de forma surpreendentemente
activa as movimentações nas músicas improvisadas
neste início de século XXI, tendo-se focalizado principalmente
em redor da estética reducionista (mas não só). Para
além de ter registado trabalhos dos mais importantes exploradores
nacionais (Margarida Garcia, Rafael Toral, Sei Miguel), fazem parte do
catálogo da editora nomes de referência como Tetuzi Akiyama,
Günter Müller, Oren Marshall, Rhodri Davies, Axel Dörner,
Mazen Kerbaj, Dan Warburton, entre vários outros. No entanto, a
maior fatia de contributo criativo para o catálogo da editora vem
do seu próprio líder, Ernesto. Participante em quinze álbuns,
o violinista explora em cada situação diferentes instrumentações,
registos e colaboradores, apresentando em cada disco um trabalho fresco,
ímpar, irrepetível. Estudioso do compositor Emmanuel Nunes,
Rodrigues advoga que a composição está presente no
seu trabalho, mesmo que seja trabalhada em tempo real e não seja
evidente. Sobre este facto, afirmou numa entrevista ao Bodyspace: “Mesmo
quando se improvisa, há uma gestão/estruturação
de materiais contínua em tempo real e a minha formação
passa sem dúvida pela absorção de inúmeros
conceitos e métodos que intrinsecamente se ligam à sua fortíssima
personalidade musical e humana.” A exploração textural
e sónica que Ernesto Rodrigues faz da viola (ou, ocasionalmente,
violino) é apenas uma extensão do seu trabalho musical,
que tem na interacção talvez a parcela mais importante.
Estes sete registos aqui referenciados documentam a fase mais recente
da produção de Ernesto Rodrigues (2005/2006) e são
uma mostra irrefutável de dinâmica e fulgor criativo. [...]
Nuno
Catarino (Bodyspace)
Com
formação clássica e a influência da escrita
musical contemporânea, em especial a de Emmanuel Nunes, mas actividade
na área da livre-improvisação e do chamado “near
silence”, a grande paixão do violinista e violista Ernesto
Rodrigues é claramente o free jazz. [...] Rui
Eduardo Paes
Creative
Sources nous a habitué à l’innovation expérimentale
et aux changements d’habitude d’écoute parfois difficilement
appréciable par le commun des mortels, même le plus entiché,
vu leur production pléthorique. En quelques années, le catalogue
de CS a atteint le numéro 091 (Keune/ Schneider/Kramer : The short
and the long of it). Plusieurs de leurs parutions toutes récentes
font appel à des artistes plus « réussisseurs »
ou « substantiels » qu’«essayeurs » ou «
radicalement espacés » voire « tentativistes de l’extrême».
Ces appréciations dépendent de vos expériences, bien
entendu ! [...] En conclusion, Creative Sources, une structure autofinancée
par les artistes publiés, maintient le cap de la découverte
et de l’innovation. Mais ses récentes productions se focalisent
nettement moins sur le formalisme quasi conceptuel (abrupt pour certains)
et la nouveauté per se, les enregistrements solo et l’électronique,
et plus sur l’exigence organique d’improvisateurs expérimentés
et une véritable diversité. Une belle réussite. Jean-Michel
Van Schouwburg
A
primeira parte serviu para o grupo tomar a temperatura à sala,
cheia com um público heterogéneo, entre curiosos, desatentos,
palradores compulsivos, e uma larga maioria de público disponível
para se deixar desafiar pelo desconhecido. Ajustados os níveis,
feito o aquecimento e preparados os processos, o quarteto arrancou então
para uma segunda parte a todos os títulos memorável. Desde
logo, pela empática associação entre o trio formado
por Ernesto Rodrigues (violino), Manuel Mota (guitarra eléctrica)
e José Oliveira (percussão), três dos mais destacados
improvisadores da cena lusa, com muitos anos de experiência nos
mais diversos cruzamentos e intersecções. À partida
o desafio era deveras interessante, posto que Rodrigues, Mota e Oliveira
são uma fórmula testada, capaz de nos surpreender pela qualidade
e diversidade da oferta estética em cada momento. Ao trio base
inicialmente previsto e anunciado, juntou-se o saxofonista alto Nuno Torres.
Excelente ideia, aditar este reforço de última hora. Porque
o som de Torres tem propriedades acústicas que casam na perfeição
com as demais. Daí a naturalidade com que entrou no fluxo, acrescentando
um som de saxofone moderno e personalizado.
Para o Jazz às 5.ªs do CCB, a proposta do trio passado a quarteto
foi pensada e mentalmente estruturada como uma sessão de improvisação
livre, desenvolvida em várias direcções, reconhecíveis
como pertencentes às estéticas da livre-improvisação
europeia, da música contemporânea de base escrita, e do free
jazz moderno, neste último caso, com poucos pontos de contacto
com o vocabulário do free clássico, mesmo quando, numa passagem
ou outra, se sentisse a presença espiritual do Revolutionary Ensemble,
de Jerome Cooper, Leroy Jenkins e Sirone.
Iniciado o andamento, ressaltou de imediato a afinada disciplina de grupo,
combinada com a mais ampla liberdade de comunicação, sem
quebras ou hesitações na gestão das dinâmicas.
Momentos meditativos, subidas graduais de intensidade, trajectórias
de crescente tensão, controlo e explosão multicolor.
Nas duas peças de fundo, e a nível individual, destaque
para a percussão assertiva e multicolor de José Oliveira,
a abrir espaços para as entradas do violino de Ernesto Rodrigues,
com passagens expressivas por toda a gama de registos, secundado pela
guitarra pós-Bailey, electrizante, esfalfada e virada do avesso,
de Manuel Mota, e pela sobriedade rica e elegante do som do saxofone alto
de Nuno Torres, que, conhecendo embora as invenções de Evan
Parker e John Butcher, segue a sua própria via de afirmação
por paragens onde também se pode encontrar o saxofonista francês
Heddy Boubaker, por exemplo.
Mais importante que pôr em evidência o trabalho individual
de cada improvisador, importa referir que o concerto valeu sobretudo pelo
trabalho de escultura sonora. Nessa medida, assinale-se a forma empática
como os quatro músicos souberam ouvir-se, reagir e interagir. Musicalidade
e controle da energia articulados modo a fazer funcionar o processo criativo
enquanto actividade de grupo – o fulcro da música improvisada
moderna. Eduardo Chagas (Jazz e Arredores)
A
abertura do Sources Fest ficou a cargo do agrupamento formado por Ernesto
Rodrigues (viola), Guilherme Rodrigues (violoncelo, rádios), Nuno
Torres (saxofone alto) e José Oliveira (percussão). Enquadrável
no âmbito das incursões pela estética “reducionista”
que E. Rodrigues tem encetado ao longo dos últimos anos, deste
concerto importa sublinhar duas ideias fundamentais. Em primeiro lugar,
a sensação de que a sua música caminha lentamente
para a incorporação de elementos estruturais e composicionais,
não só por se ter sentido uma sintonia perfeita entre os
membros do quarteto, como também pela relativa facilidade com que
se puderam identificar distintos períodos de pesquisa textural.
Em segundo lugar, ressalva-se o facto de a recente inclusão de
Nuno Torres no ensemble de E. Rodrigues se ter revelado uma escolha frutífera
e particularmente acertada, ele que se adaptou de forma irrepreensível
à linha estética que Rodrigues procura veicular neste projecto.
João Aleluia (Jazz.pt)
[...]
a VGO de Ernesto Rodrigues encerrou em grande nível o primeiro
dia do Out.Fest 07. Enchendo o palco do Auditório Municipal com
quase trinta músicos, a Variable Geometry Orchestra mostrou uma
notória evolução relativamente às suas primeiras
actuações. Mesmo com um número imenso de músicos
a trabalhar em simultâneo, Ernesto já se conseguiu impor
como maestro e consegue controlar melhor a massa sonora gerada pelo grupo.
Já não se trata propriamente de “caos sonoro”,
a música aqui produzida – mescla de instrumentação
acústica e material electrónico – reproduz algumas
características individuais dos diversos músicos intervenientes
(Sei Miguel, Rafael Toral, João Pedro Viegas, António Chaparreiro,
Nuno Torres, Adriana Sá, Abdul Moimême, o próprio
Ernesto Rodrigues, etc.) e consegue ser, em simultâneo, um veículo
único de unidade sonora plena de energia. Nuno
Catarino (Bodyspace)
Foi
um dos concertos que mais gostei de "ouver" e registar. Foi
aquele em que mais fotos tirei - de facto, acho que nunca desliguei a
máquina (mesmo correndo o risco de ficar sem pilhas) e devo ter
visto o concerto mais através da máquina que directamente
pelos meus olhos !!! As fotos poderão ser semelhantes, mas reportam
sempre diferentes tempos e sons que fazem a grandeza do concerto e da
Orquestra. Foi também o concerto mais homogéneo e em que
o Ernesto se apresentou mais dirigente, condutor e mentor do melhor colectivo
global que a orquestra já formou. Enfim... a VGO surpreende-nos
sempre, e é essa sua capacidade que faz com que eu procure não
falhar um concerto, mesmo nos dias em que velhas glórias da música
e do jazz também se encontrem a tocar em Lisboa, como ontem aconteceu!!!
Um abraço a todos e VGO Sempre! Rui Portugal
(Jazz e Arredores)
A
alegre confusão da Variable Geometry Orchestra
Assistimos aos preparativos e a um concerto de uma orquestra rara no mundo.
Nunca ensaia e tem uma formação sempre diferente. Faz “música
improvisada contemporânea”, explica o mentor, Ernesto Rodrigues.
Já passam das seis da tarde de sexta-feira, 12 de Outubro, quando
os membros da Variable Geometry Orchestra (VGO) começam a preparar
o soundcheck na sala 2 da Casa da Música. Chegam em pequenos grupos,
com instrumentos às costas e vão-se instalando. A maioria
veio de camioneta, meio de transporte adequado para trazer de Lisboa cerca
de trinta membros. Um pequeno grupo de músicos é do Porto,
que se estreiam nesta orquestra peculiar, sem paralelo em Portugal e rara
no mundo. Ao todo, 33 pessoas subiram ao palco da sala 2. Não ensaiaram
para o concerto – aliás, a orquestra nunca tem ensaios.
Pensada e comandada por Ernesto Rodrigues, improvisador e compositor experimental
com 30 anos de carreira, a VGO faz algo de único: une diferentes
expressões das músicas experimentais, do pós-free
jazz, à electrónica, à música contemporânea.
Não é uma orquestra de free jazz, nem de electrónica
(como a MIMEO), mas é tudo isso e mais ao mesmo tempo. Faz “música
improvisada contemporânea”, resume Ernesto, em conversa com
o Ípsilon na cantina da Casa da Música, uma hora antes de
entrar em palco.
“Este é um projecto de uma envergadura quase megalómana
e que tem uma certa importância. Reúne a nata da improvisação
nacional – nem é a nata: é o leite, é quase
tudo”, diz, sem falsas modéstias, o mentor da orquestra,
fundada em 2000. Nos anos 70, Ernesto chegou a tocar com José Afonso,
Fausto, Sérgio Godinho e Jorge Palma, mas começaria a desenvolver
pouco depois a sua paixão por compositores como Ligeti e Stockhausen.
Em cada concerto, a VGO apresenta-se com uma formação e
dimensão diferentes (peças de várias actuações
estão registadas no triplo “Stills”, disco de estreia
da VGO agora editado). Tanto podem ser 15, como 20, como até 40
ou mais. Ernesto é o único membro fixo, mas músicos
como o violoncelista Guilherme Rodrigues (filho de Ernesto, com apenas
19 anos) e o baterista José Oliveira têm marcado presença
regular nos concertos da orquestra que se tem apresentado sobretudo em
salas pequenas como a Galeria Zé dos Bois e a associação
Bacalhoeiro, em Lisboa.
Voltemos ao soundcheck. Já passam das oito da noite, a fome começa
a apertar. O palco é um rebuliço de sons desordenados, obrigando
Ernesto a gritar, de vez em quando, “pouco barulho!”. Nuno
Rebelo (ex-Mler Ife Dada, hoje livre improvisador com múltiplos
projectos) usa um arco para tocar furtivamente no violoncelo de Guilherme
Rodrigues, que retribui o gesto na guitarra eléctrica de Rebelo.
Ernesto ri-se: “Podem fazer esse número no concerto”.
Nuno e Guilherme cumpriram a sugestão.
“Há uma certa desresponsabilização que é
boa se utilizada no sentido de aligeirar”, conta um muito sorridente
Nuno Rebelo. Apesar de já estar habituado a tocar na VGO, nunca
sabe o nome de toda a gente. “A par disso há uma grande alegria,
um prazer muito lúdico de tocar com outros músicos”.
Ao contrário de muita da dita “música contemporânea”,
a música da VGO não é sisuda. É lúdica,
plena de jogos, é orgia de mil músicas em suspensão,
a engolirem-se mais ou menos anarquicamente. Ernesto é o simpático
condutor que pede, através de gestos comuns, a determinados músicos
que toquem, vigorosa ou calmamente.
Mas os membros são sempre livres de desobedecer. “Se me ignoram,
normalmente é mau porque a música fica caótica. Mas
já aconteceu. E às vezes sou eu próprio que deixo
as coisas fluírem naturalmente, e depois, quando acho que é
necessário intervir para dar alguma forma ou para controlar um
certo caos, intervenho. Mas tudo isto é muito subjectivo: o que
é caótico para mim pode não ser para ti”.
Orquestra elástica
“O que é especial na VGO é o seu carácter não
efémero”, diz João Henriques, um dos “infiltrados
do Norte” nesta encarnação de uma orquestra “em
que há 33 pessoas a criar” e não a seguir uma partitura.
Oriundos de São Francisco, Estados Unidos, John Gruntfest (saxofone
alto) e Megan Bierman (saxofone tenor) são outros dos infiltrados
da noite. Inicialmente não estavam no cardápio, mas a natureza
elástica da orquestra presta-se a estas surpresas. “Viemos
fazer um documentário sobre a nossa banda, chamada The Greatest
Little Big Band in the History of the Megaverse, em Mértola”,
dizem os dois experimentados músicos. Gruntfest (pinta de jazzman
veterano, casaco, boné e sapatilhas) dirigiu, entre 1979 e 1982,
a Free Music Festival Orchestra de São Francisco, com a qual a
VGO partilha semelhanças.
“É bom estarmos em Portugal e ter esta comunidade de músicos
a acolher-nos”, confessa Bierman, para quem a integração
num grupo tão grande de músicos desconhecidos é simples.
Eduardo Chagas, músico e crítico de jazz, começou
a participar na Orquestra de Geometria Variável a convite de Ernesto,
depois de ter visto e elogiado concertos da mesma no seu blogue “Jazz
e Arredores”. A orquestra “está a funcionar como um
viveiro para outros projectos. Recebe e dá”, observa este
observador atento da cena experimental portuguesa.
Também Chiara Picotto, italiana fixada em Lisboa, passou de ouvinte
da VGO a membro da orquestra. “Foge um bocado à definição
de música enquanto coisa melodiosa, com estrutura. O que me fascina
é a liberdade. É música elástica, os limites
não estão traçados”, dizia antes do soundcheck.
Quatro gerações
Durante o concerto, Chiara cantou o que pareciam ser sons pré-linguagem,
enredados no jardim de sons que a orquestra ia produzindo. Outros avistamentos:
Ernesto a comandar os naipes (metais, electrónica, percussões,
etc.) de um lado para o outro pelo palco e a tocar violino a espaços;
um grupo de computadores Apple a gerar electrónica subliminar durante
quase todo o concerto, com direito a uma passagem só para eles,
sem outros instrumentos; Guilherme Rodrigues a retirar sons da madeira
do violoncelo; um saxofonista a transformar-se, por momentos, num cantor;
o neozelandês Damian Stewart a fotografar a orquestra onde veio
parar por acaso; Abdul Moimême a tocar o seu saxofone tenor fora
do palco; crescendos alienígenas em que jazz, electrónica
e outras músicas se misturam e digladiam e momentos de quase silêncio
ou de destaque de um só instrumento.
Antes, o saxofonista soprano e flautista Jorge Lampreia explicava-nos
a “riqueza desta música”: “É música-música”,
que vale mais pela “capacidade de audição enquanto
se está a tocar” do que pela “técnica dos instrumentistas”.
Ernesto Rodrigues: “Isso é uma coisa que está patente
nestas novas músicas. É mais importante saber estar do que
ser virtuoso. Conheço muita gente que toca muito bem mas se vier
tocar aqui só faz asneiras. Há que saber estar, saber gerir
o silêncio com o fortíssimo, com os pianos, com os “tuttis”,
os solos, as dinâmicas, os andamentos, os timbres – a música
é feita disso. A riqueza tímbrica e tudo o resto é
o que mais me seduz numa orquestra. É uma panóplia infindável”.
A existência de uma entidade como a VGO assinala a boa saúde
das músicas experimentais em Portugal, nomeadamente em Lisboa.
A cidade tem vindo a fortalecer um circuito de locais, agentes e público
interessado, sendo habitualmente assinalada a força do experimentalismo
português por oposição ao da vizinha Espanha. “Stills”,
o disco da VGO, é o centésimo da Creative Sources, editora
fundada em 1999 por Ernesto Rodrigues que é presença habitual
nas páginas de crítica de publicações especializadas
como a “The Wire”.
A orquestra é sintoma deste estado de coisas e potencia colaborações
entre diferentes gerações de músicos. Já há
quatro gerações de experimentalistas em Portugal (Ernesto
é da segunda) e todas já participaram na VGO, assinala o
mentor do projecto.
Guilherme Rodrigues, filho de Ernesto, é o rosto dessa quarta geração.
Não é habitual aos 19 anos um rapaz estar a improvisar com
músicos tão reconhecidos, mas Guilherme começou ainda
mais novo. Tinha 11 anos quando entrou num disco, improvisando com o pai
e José Oliveira. “Desde que nasci, que ‘levo’
com isto em casa”, conta. “Estudo no Conservatório
e toco na Orquestra Sinfónica Juvenil, mas gosto muito mais de
improvisação livre”. Ernesto conclui: “Esta
linguagem é universal. Os arquétipos são os mesmos”.
Pedro Rios (Jornal Público)
Creative
Sources is probably the first label to conjugate mass-production with
quality. Despite having reached the enviable number of 100 releases, and
several "interested" criticisms by other label owners notwithstanding,
Ernesto Rodrigues' activity and constant quest for self-expression has
allowed a large number of otherwise scarcely known worthy improvisers
to release intriguing documents of mostly non-idiomatic sonic exploration,
music whose excellent level is by now demonstrated and confirmed by a
worldwide recognisability that has affirmed the Portuguese imprint as
a reference name in the new music world.
Massimo
Ricci's choice of ten CS records which constitute a good introduction
to the label for the newcomer, while also being among the best of its
production :
DORSAL
– Ernesto Rodrigues, Manuel Mota, Gabriel Paiuk
CAPACIDAD DE PERDIDA – Ruth Barberan
POLLEN – Ute Wassermann, Richard Barrett
THE DUCHESS OF OYSTERVILLE – Chris Forsyth, Nate Wooley
KREIS – Ernesto Rodrigues, Michael Thieke, Guilherme Rodrigues,
Carlos Santos
ALUD – Pablo Rega, Alfredo Costa Monteiro
L'ECORCE CHANTE LA FORET – Frederic Blondy, Jean-Sebastien Mariage,
Dan Warburton
AGAPE – Martin Kuchen, David Stackenas
KREISEL – Claus Van Bebber, Michael Vorfeld
INTERSECTING A CONE WITH A PLANE – Hans Tammen, Ricardo Arias, Gunter
Muller Massimo
Ricci (Expresso)
[...]
Playing with Ernesto Rodrigues, Guillerme Rodrigues and Carlos Santos
was about sound - it was “abstract expressionist” to me, which
I love. That was like Motherwell, or Franz Kline or Rothko. It requires
from me a different relationship with my materials; it’s one of
the most important changes in aesthetics that has occurred in the last
century, and it still has not been fully assimilated into the culture.
[...] Joe Giardullo
Il
violinista Ernesto Rodrigues è un tassello chiave nei meccanismi
creativi della cità. Fondatore della celebre etichetta Creative
Sources, si muove da anni nei territori della sperimentazione, dall’improvvisatione
radicale all’elettroacustica. Vanta studi con importanti nomi della
musica contemporanea portoghese, collabora regolarmente con una serie
di musicisti internazionale (da Alessandro Bosetti a Tetuzi Akiyama, da
Keith Rowe a Ingar Zach) e dirige due importanti ensemble (dal 2000 la
Variable Geometry Orchestra). Organizza frequentemente eventi e festival
ed è una delle personalità più attive della cità.
Riccardo Wanke (Blow Up)
(...)
As honras de abertura couberam ao duo formado por Ernesto Rodrigues (viola)
e Nuno Torres (saxofone alto). À semelhança do que havíamos
presenciado em Julho, ainda que num contexto diferente, estes músicos
revelaram uma vez mais níveis de intensidade e cumplicidade verdadeiramente
notáveis. A actuação iniciou-se com uma rápida
troca de ideias musicais, à qual se seguiu uma exploração
das possibilidades acústicas da sala com ambos os músicos
a circular livremente sobre o palco, para depois terminar em total consonância,
num longo e homofónico drone. Soberbo! João
Aleluia (Jazz.pt)
À
ordem do arco do violino que serve de batuta ao Maestro Ernesto, orquestram-se
os sons clássicos com os ruídos da electrónica e
as percursões várias. De diálogos calmos entre os
sopros, a delírios obsessivos, experiências de música
e espaço construidas por um laboratório de sons e sensações.
Gosto. É daquelas coisas que primeiro estranha-se e depois se entranha.
Rendeiro
Ernesto
Rodrigues, responsável pela Editora Creative Sources, tem realizado
um trabalho notável na área da improvisação
não idiomática. Como músico, é um dos mais
sólidos improvisadores portugueses, tendo realizado dezenas de
concertos e gravações com músicos nacionais e estrangeiros.
Neste concerto conta com a colaboração de dois dos mais
destacados praticantes europeus de uma música improvisada nos limites
da abstracção. CCB
Ernesto
Rodrigues (violino, viola) dá largas ao seu fascínio pela
complexidade da microscopia sonora, e por tudo o que está para
lá do som convencional. Importa-lhe a redefinição,
pela via da improvisação e da experimentação
sonora, do papel dos instrumentos acústicos, do seu próprio
conceito e daquilo que se conhece como resultante possível da execução
instrumental.
Inomináveis possibilidades sonoras são-nos propostas para
funcionar em diferentes planos e contextos, texturas granulares, atrito,
afagamento de superfícies planas e rugosas, distensão, focagem
próxima do objecto, eco, revisão, distância e refocagem
– expressionismo, pontilhismo, nuance delicada, invenção
da sua própria poética.
O resultado é uma música viva, intensa, pulsante e multipolar,
com amplas dicotomias sonoras, nas quais o jogo harmónico explora
os diferentes registos da instrumentação e da ressonância
do espaço, passando de um som reduzido, quase imperceptível,
para dimensões orquestrais de espectro sonoro completo.
A par do uso e extensão de um vocabulário multi-referencial,
Ernesto Rodrigues utiliza todo o potencial acústico dos seus cordofones,
cobrindo zonas escondidas, insuspeitas e improváveis, questionando-se
a si próprio enquanto músico ao pôr em causa os fundamentos
do paradigma anteriormente definido. Eduardo Chagas
Com
um percurso de décadas feito no cruzamento da música erudita
contemporânea e do free jazz, o nome de Ernesto Rodrigues ficaria
associado às novas tendências da livre-improvisação
que emergiram na Europa (com centros nevrálgicos na Alemanha, na
Áustria, em França, na Grã-Bretanha e em Portugal),
nos Estados Unidos, no Canadá, no Japão e na Austrália.
Às novas propostas surgidas chamou-se genericamente de reducionismo,
pelo facto de cultivarem a proximidade do silêncio, mas também
por trocarem a lógica do fraseado pela construção
de texturas e por utilizarem os instrumentos fora dos tradicionais conceitos
de escala. A música electrónica é uma influência
forte no modo como Rodrigues aborda a viola e o violino, cortando radicalmente
com os modelos que nos chegam do romantismo. Fez música para dança,
cinema e vídeo e lançou em 1999 a muito bem sucedida editora
Creative Sources, uma das mais importantes “labels” de música
experimental, electro-acústica e improvisada a nível mundial,
com mais de 100 títulos editados e uma entusiástica receptividade
por parte da crítica internacional. Rui Eduardo
Paes
Ernesto
Rodrigues Quinteto, programado para a tarde (19h00) de dia 12.07.2008,
no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa,
no âmbito do festival Música Portuguesa Hoje. Com Ernesto
Rodrigues, em viola, o libanês Stéphane Rives, em saxofone
soprano, o galês Rhodri Davies, em harpa eléctrica e electrónica,
Guilherme Rodrigues, violoncelo, e Carlos Santos, computador. Muito suavemente,
do impulso inicial passou-se a uma cadência lenta, cordas eléctricas
e acústicas, sopro e electrónica em murmúrio descontínuo,
alternado com breves, muito ligeiras, altercações, a pôr
em relevo o carácter rendilhado da peça única que
compôs o set, sempre mais variado nos timbres que nas dinâmicas.
A partir do primeiro quarto, a sessão evoluiu por sobre a camada
electrónica de fundo, trama sobre a qual se foram dispondo os outros
elementos sonoros de modo esparso, micro-eventos em que preponderaram
os cordofones acústicos. A música do grupo, que tocou junto
pela primeira vez, salvo três quintos (Rodrigues, Rodrigues e Santos)
que há anos se desdobram nas mais variadas formas e contextos,
mostrou-se tributária das formas de improvisação
moderna que primam por fomentar menor actividade sonora, fazendo uso de
elementos acústicos de maneira sóbria e elegante. Com uma
ou outra hesitação e indecisão geral, e em particular
de Davies e Rives, por opção própria mais ausentes
que presentes na panorâmica, tempo houve para deixar cada som nascer
e desenvolver-se no espaço, lentamente, procurando o momento e
o local certeiro para provocar a imaginação e deixar fluir
as emoções, como feixes de luz a tremeluzir no escuro. Música
intrinsecamente tensa apesar da enganadora serenidade, cheia de momentos
interessantes para quem aprecia a atonalidade, a dissonância e o
convencionalismo próprio da improvisação livre, em
parte graças ao intercâmbio gerado instantaneamente, noutra
parte pelo facto de os músicos terem sabido ouvir-se entre si,
sabedores de que neste tipo improvisação de câmara
tão importante é a decisão de intervir como a de
ficar de fora num determinado momento. Eduardo Chagas
[...]
Seguiu-se aquela que era, à partida, uma das propostas que maior
expectativa gerava, o quinteto do violista Ernesto Rodrigues, com que
contou com as presenças de Rhodri Davies na harpa electrónica
e de Stéphane Rives no saxofone soprano, para além de Guilherme
Rodrigues (violoncelo) e Carlos Santos (laptop). A música muito
abstracta do quinteto criou momentos deveras interessantes, não
obstante o facto de ser a primeira vez que os 5 músicos se apresentavam
em conjunto. O concerto acabou algo abruptamente, ficando a ideia de que
algum elo da cadeia improvisacional se terá quebrado…
[...] António Branco
O
violinista Ernesto Rodrigues tem um percurso de várias décadas
na música improvisada em Portugal com participações
em inúmeros concertos e festivais no estrangeiro, dedicados principalmente
a uma estética reducionista também apelidada de near silence.
Os seus interesses têm-se dividido entre a música contemporânea
composta e improvisada. Enquanto autor foca-se principalmente nos elementos
sónicos e texturais da música, por vezes mais próximo
do free jazz, outras num contexto não idiomático muitas
vezes apelidado de novas músicas. A música electrónica
é uma influência forte no modo como aborda o violino. Fez
música para dança, cinema e vídeo e lançou
em 1999 a editora Creative Sources, uma das mais importantes a nível
mundial no campo da música experimental e electro-acústica.
No concerto desta noite troca o violino pela viola de arco. Pedro
Costa
[...]
Portugal's ever-interesting and understated label Creative Sources continues
its prolific run with three new releases. This set presents players lesser-known
internationally, but label owner Ernesto's Rodrigues' ears continue to
be selective and unerring in his ability to find players with new sounds
to say in unusual ways. My personal favorite of the set is the excellent
percussive duo of Wolfgang Schliemann and Michael Vorveld, who find new
ways to hit, strike, bow, scratch, plug and throw their instruments in
fascinating ways. [...]
Phil Zampino
Ernesto
Rodrigues, Christine Sehnaoui, e Axel Dörner, ao vivo na Culturgest,
em Lisboa. Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008. A história de cada
músico é conhecida pelo menos de quem segue com atenção
o que se passa na Europa nesta área musical. Têm associados
percursos individuais de aprendizagem, assimilação e libertação
dos padrões e clichés da música improvisada, tal
como o género se foi afirmando ao longo das últimas décadas.
É esse o resultado do investimento naquilo que constitui factor
de diferenciação: o trabalho minucioso e idiossincrático
sobre as propriedades do som enquanto matéria-prima essencial,
com particular incidência nos aspectos tímbricos e texturais
de um género que assume a sua condição marcadamente
não-idiomática. Eis o que se pode em termos actuais designar
por moderna improvisação livre, que se encontra umas vezes
imersa num estilo para-reducionista, em que o que se pretende é
que menos por menos dê mais; outras procurando afirmar-se na permanente
reelaboração do processo criativo, cujo valor final acabe
por exceder o conjunto das contribuições de cada interveniente.
Foram estes os vectores dominantes no concerto da Culturgest. Nessa medida,
Rodrigues, Dörner e Sehnaoui deram a ouvir uma música essencialmente
sinergética, na qual três subsistemas sonoros de elevada
complexidade concretizaram uma tarefa que, sendo una, acabou por ser superior
ao somatório das partes. Tenha-se bem presente que os três
músicos, individual ou colectivamente considerados, transcendem
quaisquer barreiras estéticas ou geográficas dentro da música
improvisada, tal como se conhece desde há 40 anos. A multiplicidade
de contextos em que têm trabalhado, juntos ou em separado –
mas nunca neste trio – as tonalidade escolhidas e propostas, as
sólidas bases comunicacionais, o conhecimento das técnicas
dos respectivos instrumentos, a que somam outras por si inventadas, sobretudo
na periferia física dos objectos produtores de som, criaram as
bases para a exploração do catálogo sonoro para além
dos limites que os próprios conhecem. Rodrigues, Dörner e
Sehnaoui comunicaram de modo intuitivo na mesma língua franca,
com sensibilidade e inteligência, exibindo um léxico rico
e variado nas formas e nos modos de tratamento de cada situação.
Admiráveis foram as trocas de sinais através de sinapses
criadas no instante, que potenciaram o bom entendimento tripartido, através
de afirmações, interjeições, sobreposições,
aditamentos e outras maneiras de acrescentar complementaridade, mesmo
quando a opção passava por ficar de fora num dado momento,
a assistir, como o público, ao nascimento da próxima escultura
sonora. E assim se esteve deliciosamente durante perto de uma hora a ouvir
um set único, totalmente acústico, tocado numa sala que
tem excelentes condições para a prática da modalidade,
quer em termos de forma e dimensão, quer quanto às propriedades
acústicas, o que permitiu perceber toda a actividade, do som em
bloco até à partícula mais delicada e de menor volume.
Se ainda não ficou claro, afirmo agora que o trio Rodrigues, Dörner
e Sehnaoui, mercê da inspiração e do alto nível
comunicacional dos participantes, ofereceu um recital primoroso, lírico
e luxuriante no seu minimalismo. Boa notícia: o concerto foi gravado
por Carlos Santos e é provável que venha a ter edição
na Creative Sources Recordings. Eduardo
Chagas
[...]
It reminds me considerably of the Portugese Creative Sources label, really
understated slow moving but sonically fascinating improvisations. More
and more I find this music something like a wooly (and often erratic)
blanket that I can wrap myself up in while I'm cataloging CDs late at
night.
Looks like MASS has ended for the night, so no doubt it's time to take
a break. Phil Zampino
Oportunidade
única para experienciar três nomes sonantes da improvisação
contemporânea em conjunto, num diálogo em trio sem memória,
revelador de uma grande constância de princípios técnicos
e estéticos. Ernesto Rodrigues, nome cimeiro da experimentação
portuguesa, conectado principalmente com o violino, apresentar-se-á
desta vez em viola, ladeado pelo escocês Neil Davidson em guitarra
acústica e pelo japonês Nobuyasu Furuya em flauta, clarinete
baixo e saxofone tenor. ZDB Muzique
[...]
Seguiu-se o trio formado por Ernesto Rodrigues (viola), Manuel Mota (guitarra)
e José Oliveira (percussão). Embora não tocassem
juntos desde o Verão de 2007, este concerto confirmou que a empatia
entre estes três músicos se mantém intacta. Trabalhando
sobretudo com arco, Ernesto Rodrigues optou por uma abordagem instrumental
relativamente “convencional”, recorrendo apenas ocasionalmente
à multiplicidade de técnicas extensivas que domina. Ainda
assim, não lhe faltaram ideias para estimular os colegas e cativar
a atenção do ouvinte. Manuel Mota foi o mais irrequieto
dos três, exibindo ao mais alto nível o seu fraseado sinuoso
e acidentado, num excelente contraponto às acções
de Rodrigues e Oliveira. Este último também se mostrou em
boa forma, salientando-se as métricas irregulares com que fez uso
do seu kit percussivo, bem como a robustez e heterogeneidade dos seus
recursos tímbricos. Foi um concerto que trouxe à memória
as primeiras edições da Creative Sources, nomeadamente os
discos “Assemblage” e “Dorsal”, ainda que esta
actuação de modo algum tenha sido um regresso ao passado.
[...] João Aleluia
Uma
característica em particular, e nesse aspecto diferenciadora das
demais que vão surgindo nos mesmos territórios da criação
musical, define as propostas de Ernesto Rodrigues: a combinatória
dos princípios da improvisação, aplicados em toda
a radicalidade das suas implicações, com o enquadramento
de um conceito bem definido e articulado. À partida, estes dois
âmbitos parecem excluir-se mutuamente, pois o conceptualismo artístico
está nos antípodas da espontaneidade e da intuição
da música improvisada, mas para o violista português reside
precisamente nesse paradoxo o desafio que tem definido o seu percurso.
Os títulos dos seus discos funcionam, regra geral, como grelhas
de pensamento (alguns exemplos são “23 Exposures”,
“Assemblage”, “Contre-Plongée” e “Kinetics”,
remetendo-nos, inclusive, para o universo das artes visuais), e em algumas
das edições as “liner notes” procuram mesmo
circunscrever as coordenadas em que a música “acontece”.
O jogo entre as duas dimensões adquire particularidades muito específicas,
dado que não se trata de justificar teoricamente o que vamos ouvir,
mas de lhe dar aquilo que Ernesto designa por “subjectividade referencial”.
[...] Rui Eduardo Paes
A
primeira surpresa deste concerto foi ver o pequeno auditório da
Culturgest praticamente cheio para assistir a um concerto que não
é propriamente um registo “easy-listening”. E esta
questão torna-se superlativa pelo interesse que esta música
nova desperta, cada vez mais, a um número mais alargado de pessoas.
Convém assinalar que não estamos na presença de nomes
muito conhecidos do público tradicional do jazz. Ernesto Rodrigues
há muito que vem trilhando um caminho que, embora se cruze aqui
ou ali com o jazz, estabelece mais pontes de contacto com as novas correntes
reducionistas, ou near-silence, como se lhe quiser chamar. Este tipo de
música privilegia o espaço entre sons e não valoriza
em demasia a melodia. Sons sónicos e texturas convivem em harmonia
com os silêncios num registo em que menos, muitas vezes, é
mais.
Já Axel Dörner é um nome conhecido do jazz europeu,
pois tem tocado com muitas das luminárias do lado de cá
do Atlântico, casos De Alexander Von Schlippenbach, Peter Kowald
ou Barry Guy, só para citar alguns, mas é igualmente um
mestre da música improvisada, de cariz jazzistico e também
deste tipo de músicas mais abstractas e complexas.
Christine Sehnaoui é, de todos os músicos em palco, aquela
que apresenta um menor “body of work”. Descobriu a música
improvisada em finais do século passado e, só a partir daí
começou a desenvolver técnicas de improvisação
para saxofone alto, num registo de auto-aprendizagem.
Depois de apresentados os músicos, vamos ver como contribuíram
para o que foi apresentado em palco; importa referir antes de mais, que
conseguiram ajustar em proveito do conjunto as suas personalidades musicais
individuais, tendo criado um espectro sonoro claro, evidentemente muito
baseado em explorações tímbricas e de som puro, que
privilegiaram texturas mais ou menos angulosas e a utilização
total das capacidades dos instrumentos que tocam.
Todos os músicos prepararam, aqui e ali, os seus instrumentos,
de forma a extrair deles sons que, tocados duma forma escolástica,
nunca seria possível ouvir. Mas estas preparações
e estes registos não são “vã pirotecnia”,
são antes técnicas que permitem fazer uma utilização
extensiva dos instrumentos e que em muito enriquecem o espectro sonoro.
Estes três músicos nunca se tinham encontrado enquanto trio,
mas revelaram que conhecem bem a linguagem uns dos outros. Foi frequente
entender, ao longo do espectáculo, que se estavam a ouvir muito
bem. A verdade é que, num palco largo, optaram por tocar juntos
no centro e sem qualquer tipo de amplificação, para que
houvesse uma percepção total do som de cada um. Ernesto
ao centro, não só porque a viola é o menos histriónico
dos instrumentos, mas também porque foi ele que, pontualmente,
agregou algumas investidas mais “musicais” dos sopradores,
voltando à matriz abstracta e sensorial da sua proposta.
Em suma, assistimos a um concerto de absoluta excepção,
que juntou três almas musicais distintas mas que se tornaram visceralmente
complementares, quer pela capacidade comunicacional impar, quer pela necessária
percepção da semiologia que está subjacente ao entendimento
de que esta música significa, acima de tudo, afastamento dos gastos
ícones da velha música improvisada. João
Pedro Viegas (jazz.pt)
Although
we have never met in person (but it’s not too late), Ernesto Rodrigues
and myself share a silent alliance since the very beginning of our reciprocal
enterprises, as he’s always been at the forefront of the thousands
who were fooled by copious doses of purple prose hiding a total lack of
insightfulness. Creative Sources remains one of the top labels of improvisation
around, despite 1) constant criticism by people who don’t actually
listen to the music and 2) a sometimes overly egalitarian approach in
terms of quality control. Isolated scribblers are perennially submerged
by records, thus I am in long delay with the recent releases by Ernie’s
imprint. Let’s try and fight back in order not to be counted out
by the referee while absorbing fusillades of blows to the ears. Massimo
Ricci (Temporary Fault)
Ich
fühl mich fast wie Gimli, als er unter ein Warg, eins dieser hyänenartigen
Reittiere der Orks, geraden ist. Nur sind auf mich gewöhnlichen Sterblichen
12 - in Worten: zwölf - weitere CS-Releases (eingepackt in Klopapier!)
eingestürzt. Argh! Stinking creature. Argh!.
Rigobert Dittmann (Bad Alchemy)
Before
I post tonight’s mini-reviews of two recent Creative Sources releases
I thought I would share a few thoughts on the label that I have had today.
CS gets a lot of stick, unlike that received by any other label operating
today bar maybe Leo. There seems to be two main threads to the criticism.
The first seems to be aimed at CS’s “pay to play” policy
of releasing albums. In short, the discs that come out on the label are
often (not always) part-funded by the musicians that appear on them, with
much larger than normal amounts of the final product going to the musicians
for them to sell at gigs, or use as calling cards to try and obtain more
paid work. Just this fact alone seems to rile a few people. I have no
idea why. As I see it the label remains solvent, the musicians get the
benefit of professional advice, support, design etc… and a large
number of CDs on a professional label that they can try and eke out a
living from. I have no idea what is wrong with that.
More often though the accusation thrown at CS is that the pay-to-play
policy results in poor quality control, and that the releases are of low
quality, maybe music that could not find a home anywhere else. This attitude
of course assumes that there is any quality control applied at all. I
am guessing that Ernesto Rodrigues, the label owner does have some input
into what gets released and what does not, but maybe he doesn’t.
I don’t think anything has ever been said officially on this one
way or the other. Either way, poor quality control (If indeed this accusation
can be made) does not necessarily mean that all CS releases are below
par. Past listening has shown me that in fact this is certainly not the
case. There have been some really good ones. As for the releases only
really being cast-offs unwanted by other labels well I can only say that
of the 150+ Creative Sources releases so far, with around a hundred of
them since I began running a label myself, only one of them ever came
to me at Cathnor as a demo. What is more I don’t think I ever actually
got around to listening to the music in question, so I didn’t even
turn it down. So why does CS continue to get unparalleled abuse from people?
Part of the answer lies in the response to another question again - Why
did I stop buying and therefore listening to the Creative Sources catalogue
in its entirety after the first thirty or so releases? Simply, as a paying
customer I could not keep up. Over the past few years the output of the
label seems to have risen to some thirty-odd discs a year. Many of the
musicians (certainly far from all of them though) are also unknown to
me. So why would I spend a lot of money trying to keep pace with that
kind of a release schedule when I have no past experience of the musicians
involved? In short, there is no reason why I would.
So what I have tended to do over recent years is keep an eye intermittently
on the catalogue, and pick up discs every so often that involve musicians
I like the work of. It was in fact after putting together a list of half
or dozen or so CS discs that had attracted my interest over the last year
that I contacted Ernesto to get a price to purchase them. As I had recently
spent some time reviewing a couple of CS discs here that had been given
to me independently by the musicians he very kindly sent me a large bundle
that included the discs I was interested in for free. So now, having not
had to pay for them, I can listen to each disc with an unbiased ear and
decide for myself if the standard is indeed low or not, and hopefully
provide the readers here with some background info with which to make
their own decisions.
However, dismissing the label out of hand as a waste of time, without
having heard a good portion of the music is misguided, rude and potentially
quite arrogant. There seems to be very few commentators out there that
have heard the bulk of the catalogue, just a very small handful of reviewers
it seems. (this is the first time I have been sent a bundle of discs to
review) When I have read extensive writing on large numbers of the releases
there seems to be a definite spilt, maybe as high as 50/50 over whether
the reviewer in question liked the CDs or not. So why would those that
have not heard anything like as many be so damningly critical of the label
as a whole? I can fully understand that people do not want to take a 50/50
risk on a purchase, which is why reviews are very important for CS, and
I intend to do my bit and write something eventually on every disc I’ve
been sent, but just dismissing the label out of hand is misguided in my
opinion. Maybe I have been slightly guiltly of this in the past, but as
this year has been very much a year of re-evaluation of the musical prejudices
I have held it is definitely time to wipe that slate clean and let the
music speak for itself. Or not. Time will tell. Richard
Pinnell (The Watchful Ear)
What
began in 2001 as a recording outlet for a group of Lisbon improvisers
has in less than a decade grown to a CD catalogue of more than 170 releases
with an emphasis on fresh, innovative sounds. Under the direction of violist
Ernesto Rodrigues, every month or so Creative Sources (CS) Recordings
releases two or three CDs from committed international musicians. “Creative
Sources is musician-run for musicians,” declares Rodrigues. “We’re
not here for the money, but for the art”.
“We deal with certain kinds of music, like ‘near silence’,
lowercase, electro-acoustic, new improv, and some post-Free-Jazz. The
musicians involved are mostly young, with new approaches to improv and
composition, silent stuff and texturized sound, usually from the manipulation
of the instrument, few notes, and extended techniques.”
CS welcomes demos showcasing what Rodrigues describes as “strong
stuff, clear and focused – or even if the process is interesting
musically and worth hearing.” Deciding to release the session, he
asks musicians to supply audio masters then the violist and Carlos Santos,
a graphic designer and computer musician, design the package, perform
sound adjustments, have 500 copies pressed and distribute them. In exchange
for supplying half the funds, the players receive about 300 CDs they sell
themselves, while CS markets the rest.
CS’s international focus developed with its ninth release, No Furniture
(Creative Sources CS 009 CD) by Berliners, trumpeter Axel Dörner,
clarinetist Kai Fagaschinski and Boris Baltschun on sampler. CS already
had a Web presence and had received good reviews for its first releases.
“They (the Germans) heard and enjoyed our work and approached us
about their session. We liked the music, which was in the same range as
ours, so we had the chance to augment the catalogue. We established ourselves
as a label that cares about this kind of music and promotes it. From then
on we started to receive lots of demos from around the world for release…
We refuse a lot of them,” admits Rodrigues.
Although some players on our roster put out discs on other labels, others
do not. “Musicians with known credits that have some works in this
kind of structure approach CS, in spite of having very different work
on other labels,” he adds.
Recently for instance Goldstripe (Creative Sources CS 121 CD), showcased
Bay area laptop and electronics-manipulator Mark Trayle’s lively
and unsettling static-undulating drone compositions and improvisations
using data read from the magnetic stripes of credit and bank cards. On
the acoustic side, Swiss pianist Jacques Demierre’s One is Land
(Creative Sources CS 131 CD) concentrates on high-frequency, subterranean
sound waves wrenched from the instrument’s soundboard by pounding
its lowest-pitched keys amplified with pedal-power. Sureau (Creative Sources
CS 112 CD) is a rare example of the expressive vocal gymnastics of Brussels-based
Jean-Michel Van Scouwburg, backed by percussionist Kris Vanderstraeteen
and bassist Jean Demey.
An earlier notable example of New chamber music is On Creative Sources
(Hail Satan) (Creative Sources CS 093), from Spanish bass clarinetist
Carlos Galvez Taroncher, German pianist Magda Maydas, Dutch bassist Koen
Nutters and Norwegian drummer Morton Olsen. This trans-European admixture,
exhibits the spacey tonal rotation and sudden introduction of extended
timbres that relate to jazz-improv as well as notation.
CS was also one of the first labels to expose some local experimentalists
internationally. Abu Tarek (Creative Sources CS 025 CD) for instance,
documents the unique choked and splintered brass excavations of Lebanese
trumpeter Mazen Kerbaj, in the company of fellow micro-tonalist, Austrian
trumpeter Franz Hautzinger. Absence (Creative Sources CS 034 CD) showcased
the tremolo tongue rhythms, percussive vibrations and dramatic pauses
of Argentineans, trumpeter Leonel Kaplan and percussionist Diego Chamy
in a trio with Dörner. Meanwhile Metz (Creative Sources CS 015 CD)
is unstructured Free Music from France that used acoustic strings and
reeds to expose what sound like synthesizer wave forms. The experimenters
in 2003 were clarinetist Xavier Charles, tenor saxophonist Bertrand Denzler,
pianist Frédéric Blondy, violinist Mathieu Werchowski and
guitarist Jean-Sébastian Mariage.
Closer to its home, Stills by the Variable Geometry Orchestra (Creative
Sources 100 CD) is a three-CD set featuring 46 participants in the Lisbon
free music scene in large ensembles. With Rodrigues playing and “conduction-ating”
the detailed, multi-shaded polyphony balances orchestral integration with
solo permutations. Included are players such as cellist Guilherme Rodrigues,
drummer José Oliveira and Santos, who with the label manager/violist
were the core of Lisbon improvisers CS recorded initially. Stills’
layered performances draw on currents of alternating and asymmetrical
jazz, rock, folkloric and New music.
As Rodrigues states: “From its creation, every work of art is fragile
and needs to be nourished and shown to others, or time will erase it and
it will be lost among information going on everywhere. The major labels
think about profits, not music and the musicians, or they think about
‘crystallized’ forms of music that do not challenge the listener
in new ways.” August 8, 2009. Ken
Waxma n (MusicWorks Issue #104)
[...]
Para o encerramento do Sonic Scope 2009 ficou guardada a Variable Geometry
Orchestra, a orquestra “all-star” da improvisação
lusa, liderada e “conduzida” pelo violinista Ernesto Rodrigues.
Cada vez mais moderada, mais controlada, a orquestra VGO deixou de ser
um bicho selvagem para se tornar num animal parcialmente domesticado.
Longe vão os tempos em que as actuações consistiam
em erupções enérgicas do tipo “vai-acima-vai-abaixo”.
Agora a música obedece às regras bem definidas do maestro
Rodrigues: Ernesto controla o ritmo, controla a entrada e saída
de cada secção, distribui funções por cada
músico, esforça-se por manter o equilíbrio possível
num grupo que incorpora técnicas e linguagens muito distintas entre
si. Se por um lado se perdeu alguma daquela energia inicial, por outro
lado passou a ficar em evidência o trabalho de detalhe de cada músico
– e a vintena de músicos que actuou no Maria Matos não
poupou nos pormenores individuais. Nesta actuação no Sonic
Scope a secção das electrónicas (que contou com o
convidado internacional Wade Matthews, de passagem por Lisboa) foi vítima
de um volume demasiado elevado, mas de resto a música viveu numa
saudável contenção. Numa tentativa de encontrar paralelismos
poderíamos invocar as formações “Cobra”
de Zorn, as conduções de Butch Morris ou o ensemble electro-acústico
de Evan Parker, mas esta VGO distingue-se por uma criar uma atmosfera
especial. É difícil explicar, talvez só assistindo
a uma actuação ao vivo ou ouvindo o triplo-álbum
Stills se consiga perceber (ou sentir) a alquimia desta música.
Nuno Catarino (Bodyspace)
Ernesto
Rodrigues es sin lugar a duda el violinista más interesante de
Lisboa, con una creciente presencia en la escena internacional. Nos visitó
hace años para tocar en el festival ¡ESCUCHA! y nos complace
enormemente su vuelta, esta vez en compañía de Neil Davidson,
un sorprendente guitarrista escocés con el que lleva colaborando
ya tres años. Juntos, han grabado dos discos, ambos muy bien recibidos
por la crítica. No perdamos, pues, esta oportunidad de escuchar
un diálogo inteligente, maduro y siempre fresco entre dos músicos
que casi nunca tenemos la suerte de ver en vivo en Madrid. Wade
Matthews
L'immagine che meglio riassume la produzione dell'etichetta portoghese Creative Sources Records, fondata da Ernesto Rodrigues [di cui puoi leggere l'intervista], è quella di un patchwork di cover in crescendo. Nella home page del sito Creative Sources Rodrigues ha, infatti, riprodotto un vero e proprio tabulato di immagini in continuo aggiornamento, che racchiudono le sue ed altrui storie di incontri e collaborazioni musicali, rimandando a visioni, poetiche ed estestiche diverse tra loro e rivelando al contempo una pregevole ed inedita sezione della musica di ricerca o d'arte europea.
Ogni lavoro pubblicato - e ad oggi sono più centosettanta - da Creative Sources è un pezzo che va collocato in quel tutto [universale] che minuziosamente sta costruendo da anni Ernesto Rodrigues per delineare le "fonti" creative della musica elettro-acustica/d'avanguardia/d'improvvisazione portoghese, ma non solo. Il progetto di Rodrigues, sopraffine violinista, ma anche energico promotore di musiche altrui, è la sostanza dell'arte dell'intreccio dei suoni e non può essere scollegato da Creative Sources. Nell'articolo che segue ne ripercorriamo alcune tappe, per noi significative, soffermandoci sulle più recenti pubblicazioni. Punto di partenza dell'etichetta Creative Sources sono state due registrazioni effettuate insieme al figlio violoncellista Guilherme (che all'occasione suona una tromba tascabile) e il percussionista, artista visivo (Fluxus), José Oliveira, che rappresentano due opposte, ma continuamente accostate tendenze sia di Rodrigues in primis che della musica da lui prodotta in secondo luogo. Da una parte Multiples (2001), una strabiliante sessione d'improvvisazione free, rappresenta una tensione constante al confronto con altri musicisti, in formazioni variabili, con modalità proprie dell'improvvisazione free, specie quella europea (addizionata di una forte componente elettronica); dall'altra il doppio cdr Musique de Chambre (1999) rappresenta un sempre rinnovato interesse per la musica composta, eseguita con modalità e ricercatezze proprie di quella da camera. Ma quali sono i suoni che caratterizzano l'etichetta portoghese Creative Sources? Che cosa, nonostante la sua posizione geografica sia ai confini dell'Europa, la rende, in fondo, così continentale?
Difficile trovare una sola risposta. Forse è la sua stessa poetica e quell'estetica costruita inizialmente e perseguita con tenacia poi da Rodrigues a rendere il profilo della musica che produce così profondamente pregno di storia continentale. Le molte collaborazioni con l'area mitteleuropea non sono casuali e nel patchwork generale incidono parecchio, più forse di sonorità (che ci aspetteremmo) caratterizzanti l'area portoghese. Non mi pare un caso nemmeno che per molti anni Creative Sources abbia prodotto registrazioni di "(micro)ensemble," che pur avendo una solida appartenza ai suoni dell'elettro-acustica o dell'impro free, hanno inciso poche studiate, minimali, tracce come se si trattasse di vera e propria musica da camera. In tali registrazioni la componente elettronica risulta sempre e assolutamente equiparabile a quella acustica. Il recente TonArtEnsemble (2010) dell'omonimo ensemble con l'elettronico e sintetizzatore Robert Klammer ad accompagnare una larga formzazione "teutonica" con Rodrigues è davvero un bell'esempio. Più nel dettaglio però mi pare che la componente elettronica riesca a prevalere solo quando il progetto tende di natura al vero free e si spinge fino a forme d'improvvisazione con pezzi e parti poco strutturate. Un esempio di un certo interesse è Speak Easy dei Backhats (2009), un progetto di fattura tedesca che ruota attorno alle voci e ha visto coinvolti i vocalist Ute Wassermann e Phil Minton, affiancati dal "sintetizzatore" Thomas Lehn e dal percussionista Martin Blume. Caso "estremo," infine, di questa tendenza è il recentissimo .next (2010) con ben tre laptop-isti - Jeff Carey, Robert van Heumen e Bas van Koolwijk - in assetto impro/compositivo. Emblema di una certa poetica di Creative Sources è senza dubbio un gusto profondamente insito in Rodrigues che, come si diceva, riserva uguale attenzione ai due "fondamenti," elettronica ed acustica degli strumenti, mostrando a tratti una sorta di andatura unica nel loro uso e bilanciamento. È evidente, infatti, che Rodrigues pensa in una "forma elettro-acustica" (unica e totalizzante) ed è per questo forse che la sua musica ha un impatto tanto forte, anche in termini di gradevolezza sonora (non stride come certa elettonica...). timelines los angeles (2009) - con Olivia Block al piano preparato e Ulrich Krieger al sassofono, accompagnati da quel mostro sacro di Jason Kahn e Mark Trayle - è la registrazione che davvero esemplifica questa idea di composizione/esecuzione live processing dove acustica ed elettronica svolgono uguale funzione. Rodrigues è inarrivabile e straordinario nel suo far uso dell'elettronica (dentro e con lo strumento che suona, quasi fosse un tutt'uno), rinunciandovi subito se accompagnato dal suo fido sperimentatore elettronico (una "costante" in Creative Sources) Carlos Santos. Con Santos infatti la musica cambia e Rodrigues lavora soprattutto di tecnica e di cesello, lasciandosi ad un maggior gusto per le forme sonore. Si veda in tal senso il bellissimo Vinter (2010). Per soffermarsi sulle più recenti produzioni di Rodrigues, May there be... (2008), Eterno Ritorno (2009) e Twrf Neus Ciglau (2009) sono altri tre lavori degni di nota. May there be... è di particolare bellezza: presenta nove improvvisazioni corte, da leggersi come una suite, con melodie ritornanti, forte attenzione ai noir, con intrecci di corde tra violino, violoncello e interno del piano (Padro Rebelo) e di fiati (Franziska Schroeder al sassofono). Nel catalogo rivestono poi una certa importanza anche le incisioni in solo, dove chiaramente è centrale l'aspetto acustico e di ricerca sonora sullo strumento. Anche qui, soffermandoci solo sulle novità, vanno segnalati Materials (2009) del fisarmonicista Jonas Kocher, il bellissimo cellos (2010) dei due violoncellisti Ulrich Mitzlaff e Miguel Mira, Ink on paper (2009) del contrabbassista Mike Majkowski e halbzeit (2009) del clarinettista Markus Eichenberger. In questa registrazioni, tutte di grande impatto e di matrice continentale, è centrale la ricerca e la sperimentazione del musicista dedito, va detto, ad un progetto che risulta profondamente personale e intimo. In questa dimensione, anche di una certa raffinatezza e ricercatezza, si riaffacciano quindi i due "fondamenti" della sperimentazione e della ricerca acustica, in una chiave pienamente "da camera". A margine vanno infine segnalati i progetti degli italiani presenti nel catalogo Creative Sources. fadensonnen (2008) del violinista Giampaolo Verga è un lavoro davvero particolare, di musica elettronica "spaziale". I concretismi e le destrutturazioni musicali di Graziano Lella, in animali (2008), irrorano di inquitudine lo spazio sonoro. Between Love and Hate dell'attuale chitarrista degli I/o Luca Mauri è il suo dirompente album di debutto, un crash di suoni per chitarra, piatti e editing digitale. Francesca Bellino
Le fonti creative di Ernesto Rodrigues
Ernesto Rodrigues (1959) è senza dubbio uno dei più interessanti violinisti della scena sperimentale ed elettronica portoghese. Insieme al figlio violoncellista Guilherme Rodrigues (1988) dà vita ad una delle collaborazioni famigliari più creative della musica europea [per credere, basta dare un'occhiata veloce al New Thing Nonet video (Youtube)].
Rodrigues "senior" è attivo oramai da molti decenni nell'avanguardia portoghese. Ha studiato musica micro-tonale ed elaborato interessanti tecniche per alterare la struttura fisica degli strumenti ad arco che suona. Come violinista/violista, ha sempre rivolto grande attenzione alla musica improvvisata e alla nuova musica, riservando una certa attenzione anche per le "graphic scores" di Gerhard Stäbler, Nikolaus Gerszewski e Phil Niblock, tanto da elaborare egli stesso partiture di una certa originalità grafica. Ha studiato musica contemporanea con importanti compositori portoghesi quali Eurico Carrapatoso, Emmanuel Nunes e Pedro M. Rocha e ha suonato in numerose formazioni ed ensemble d'avanguardia di Lisbona prima di affacciarsi alla scena contemporanea europea in cui è attivo ormai da oltre un decennio.
Attento conoscitore (e consumatore) di musica contemporanea, attratto da sempre da quella elettronica - che ha profondamente influenzato il suo stile - Ernesto Rodrigues ha lavorato a lungo sul proprio strumento, focalizzandosi su alcuni elementi sonori e micro-testuali che caratterizzano il suo modo di utilizzare il violino e/o la viola. Rumori e silenzio costituiscono parte integrante delle sue composizioni. Nel 2000 ha fondato la Variable Geometry Orchestra, un grande ensemble dove la conduzione viene operata dal bilanciamento di masse sonore che viaggiano nello spazio acustico, gestendo la costruzione delle stesse in "realtime" e lavorando così sia su specifici strumenti, che sul gruppo nella sua interezza. Rodrigues fa parte di diverse formazioni attive nell'improvvisazione free, come spalla e leader di vari gruppi, ha scritto anche musiche per la danza, cinema, video e performance. Il suo interesse principale è ora la musica contemporanea, composta e improvvisata. Nel 1999 ha fondato la Creative Sources Recordings [clicca qui per leggere un profilo della label], interessante etichetta dedita alla musica sperimentale ed elettro-acustica di ormai fondamentale importanza nel panorama contemporaneo europeo. Avendolo conosciuto come direttore di Creative Sources da questa siamo partiti per la presente intervista.
All About Jazz: Hai suonato il violino per trent'anni, durante i quali hai eseguito ogni tipo di musica. In seguito hai spostato la tua attenzione sulla musica contemporanea [improvvisata e composta]. Con un background così ricco, perché e in che momento della tua vita hai scelto di dare vita ad una etichetta e hai intrapreso la carriera di direttore artistico?
Ernesto Rodriguez: Prima di tutto era un mio vecchio sogno quello di avere un'etichetta per realizzare una musica che mi piacesse, che fosse mia o di altre persone i cui lavori mi piacevano. Volevo farla sentire e mostrare cosa davvero mi piace del fare musica. Decisi di crearne quando per ragioni artistiche volevo realizzare la mia musica, ma non riuscivo a trovare un'etichetta che avesse l'estetica che avevo. Sono diventato direttore artistico per ragioni contingenti, non mi vedo infatti come uno di quei classici "capi". Dei lavori che la gente mi manda, scelgo cosa sento vicino. Nella Creative Sources ci sono oramai direttrici musicali solide e congruenti.
AAJ: Quando hai cominciato a suonare, cosa ti ha inizialmente indirizzato all'improvvisazione, all'elettronica e alla musica creativa? Le stesse motivazioni continuano a spingerti ancor oggi?
E.R.: Le ragioni sono praticamente le stesse di quelle che avevo all'inizio, anche se oggi le cose che stanno dietro la nuova improvvisazione/elettronica sono molto diverse, perchè arrivano dalla realtà e questo cambia abbastanza la questione. Tutta l'arte è oggigiorno influenzata dal contesto in cui si trova. L'improvvisazione, perlomeno quella acustica, si muove in territori che sono sempre più vicini alla contemporanea/elettro-acustica e alla materia elettronica in termini di processi e pensiero, anche se si scosta dalle loro iniziali condizioni ed è maggiormente in relazione alla musica free.
AAJ: Senti di aver ricevuto qualcosa dal tuo lavoro con altri musicisti e da quello di produttore?
E.R.: Certamente le influenze sul mio lavoro vanno in entrambe le direzioni. Nella musica (come in altre arti) penso che la cosa più importante sia partecipare alla creazione di un oggetto musicale, sia esso fatto in studio o live. Puoi dare e ricevere, si è parte di una catena di eventi e tutto nasce da questa. È un processo che non puoi controllare; è un modo naturale di creazione condividere idee per lavorare con altri per un obiettivo comune.
AAJ: Il tuo lavoro è essenzialmente elettro-acustico. Che cosa significa questo termine oggi e, in particolare, che significato ha per te?
E.R.: Il mio lavoro è solo in parte elettro-acustico, nonostante questo tipo di musica mi interessi davvero molto. Il suo significato è cambiato oggi, poiché i processi e le sue applicazioni sono molto diverse da quelle del passato. Oggi c'è maggior controllo e precisione, la sonic palette expanded e portability sono fattori che ne consentono un uso sempre più diffuso e generalizzato. L'espressività si raggiunge con facilità. Puoi avere musicisti elettronici che suonano in un set acustico allontanandosi dallo scopo della musica nei termini di ricchezza sonora...
AAJ: So che hai una grande ammirazione per Emmanuel Nunes. Puoi presentare il suo lavoro e la sua personalità, chiarendo perchè è così importante per te?
E.R.: E' stata una cosa particolarmente rilevante per la mia vita: Emmanuel Nunes è un compositore ed io sono un improvvisatore, anche se considero l'improvvisazione come una composizione in tempo reale e devo davvero ringraziare lui per questo. Il lavoro di Emmanuel è intimamente connesso al pensiero matematico e lui ha avuto la genialità di articolare la matematica con l'espressione musicale dando vita ad una musica che è fresca. Questa musica riflette la sua meravigliosa condizione umana, umile ma con una visione straordinaria, che è la sintesi di un essere umano straordinario.
Come puoi capire dalle mie parole, Nunes mi ha influenzato profondamente, il modo in cui mi ha portato a pensare la musica mi ha dato una struttura solida per affrontare l'imponderabile con maggiore sicurezza!
AAJ: Quali software usi nel tuo lavoro?
E.R.: Dipende dal progetto o dalla situazione in cui mi trovo. Per mixare e masterizzare un cd, normalmente opto per Logic Pro (da tempo sono un "mac guy"); per progetti multi-traccia, registro in uno studio professionale live con altri musicisti, come fossi in concerto, e porto il materiale registrato nell'HD portatile nel mio studio a casa, dove, per la masterizzazione finale uso Bias Peak. Per progetti artistici uso Cycling74 MaxMsp, anche se alcuni "patches" sono miei, altri in studio o live per ulteriori manipolazioni sonore. Per comporre e la notazione uso NoteAbility Pro.
AAJ: Credi che una label come la tua sia anche "politica"? Se sì, in che senso?
E.R.: Certamente che lo è. I tipi di musica che realizziamo hanno sempre un fondamento politico, prima di tutto, perchè sono fuori dalle note categorie di musica commerciale e dal marketing; inoltre non sono soggette alle logiche dei media, sopravvivono spesso in situazioni di "ghetto," con un pubblico in crescita, ma non abbastanza da ottenre l'attenzione generale che meriterebbero. E' musica poi fatta da musicisti che prestano attenzione al dettaglio, non si tratta di prodotti da consumare in fretta e da gettare via. Persistono nel tempo, mettono in evidenza delle questioni sulla nostra società, siano esse sociali o politiche, spesso in forma più schietta, altre con significati astratti e con punti di vista sottili.
In passato questi tipi di musica (jazz, new thing) sono sempre stati usati per riflettere sulla società, come vere e proprie forme d'arte...
AAJ: Sono convinta che una label ha molto a che fare con la memoria - anche se non in una forma diretta. Grazie ad alcune label abbiamo memoria di sorprendenti esperienze musicali che (fortunatamente!) non sono scomparse senza lasciar tracce! In qualche modo una label ha la funzione di memoria collettiva (una sorta di biblioteca sonora). Cosa ne pensi della questione?
E.R.: Hai perfettamente ragione! In qualche modo raccogliamo pezzi e stimoli di un più grande mosaico sulla nostra storia ed espressione, li categorizziamo e ordiniamo per le generazioni future per imparare (ascoltare) con essi. La storia del jazz è diventata cpsì per questo, molta gente oggigiorno conosce come i musicisti si esprimono loro stessi attraverso le registrazioni, più che la sua eredità scritta...
AAJ: Come sei entrato in contatto con gli artisti italiani Bosetti, Rocchetti, Fhievel, Sigurtà, è recentemente con Luca Mauri? Conosci la scena sperimentale italiana?
E.R.: Conoscevo già il lavoro di Bosetti (che mi piaceva molto), e penso che gli altri ragazzi abbiano seguito le tracce di Bosetti. Creative Sources è diventata "forte" in Italia (almeno da quel che dice la gente) e che la scena italiana sia peculiare e interessante. Recentemente abbiamo realizzato dei lavori di Roberto Fega, Dario Sanfilippo, Giampaolo Verga e ARG (Graziano Lella) che sono tutti nomi promettenti.
Gli Italiani hanno buoni musicisti e compositori di musica nuova molto importanti, per fare solo alcuni nomi cito Luigi Nono, Luciano Berio, Giacinto Scelsi, Salvatore Sciarrino. Costoro sono stati lungimiranti nel pensiero musicali già nei primi anni del XX secolo. Pertanto è naturale con una tale tradizione che sarebbero emersi nuovi valori...
AAJ: La musica elettronica è stata la prima influenza nel tuo modo di suonare il violino. Sono curiosa di sapere se hai modificato nel corso del tempo il tuo modo di suonare e in che modo?
E.R.: Mi avvicino sempre più al lato testuale e timbrico del violino, al suo corpo e a come è stato costruito, alla sua acustica, mettendo sempre meno note suonando...
AAJ: Ho letto che sei un fervido collezionista musicale. È ancora una passione, o, con il crescere dell'etichetta, è diventato in qualche modo anche un lavoro?
E.R.: Entrambe le cose sono vere: continuo a collezionare musica accanto al lavoro nell'etichetta. Non è un lavoro, ma sempre un piacere. A me piace davvero la musica...
AAJ: Che cosa ascolti e leggi abitualmente? Puoi segnalarci alcuni libri, film e cd che consideri importanti per capire la situazione presente?
E.R.: Per quanto concerne il cinema, apprezzo molto Sokurov, Syberberg, Straub e Tarkovski. Questi sono forse i miei "poeti dell'immagine" preferiti. Quanto ai libri, devo aggiungere Brodsky, un autore che mi aiuta ad andare ancor più nel profondo dell'esistenza. Quanto alla musica, è molto difficile per me nominare un solo autore rtra le centinaia, anche se Lachenmann è quello che vorrei scegliere. Francesca Bellino
Since the 1960s, when British musicians like Derek Bailey, Evan Parker and John Stevens forged a radical strain of non-idiomatic improvisation, abstract on-the-fly music making has gone through loads of permuta- tions. But over the last decade or so, per- haps the biggest factor in the music’s growth has been non-musical. The Internet has allowed an international community of musicians to flourish and interact, and now it’s hardly surprising that strong players thrive in far-flung locales.
“It’s played an essential role in what con- cerns the edification of an international com- munity, and we’re all part of it,” Portuguese violinist Ernesto Rodrigues said. In Lisbon, a city whose best-known musical export remains the emotionally fraught fado, he’s emerged as a distinctive voice of experimen- tation. Thanks to his Creative Sources label, the world is becoming an even smaller place.
Although Rodrigues grew up around the arts — his father was a playwright and his godfather was a classical musician — a childhood pal got him enrolled in a conser- vatory. While he studied the classics, he was pursuing a strong interest in experimental music and soon became influenced by the English school of free improvisation. “The relationship with my instrument is focused on textural elements,” he said. “Electronic music was an early influence on my approach to violin playing, which challenges
traditional romantic concepts of the instru- ment through the use of preparations and micro-tuning.”
Rodrigues launched the label in 2001, pri- marily to document his own work. He quickly managed to survey a broader range of activi- ty in Lisbon with recordings that featured
guitarists Manuel Mota and José Oliveira, pianist Gabriel Paiuk, bassist Margarida Garcia and his son, cellist Guilherme Rodrigues, among others. Much of the work subscribes to a minimal, gestural style of free improvisation, although Rodrigues recog- nizes a distinctly Mediterranean quality, “that one doesn’t find outside the country. There’s generally some feeling of contemplation and lyricism,” he said.
Before long the strength of the work began attracting others, and now, with a cat- alog that boasts more than 50 titles, Creative Sources not only represents the state of the art of improvisation in Europe — with work
from people like Axel Dörner (Germany), Stéphane Rives (France), Ingar Zach (Norway) and Alessandro Bosetti (Italy) — but in other locales as well, including the United States, Japan and Lebanon. Now Lisbon has become an important stop on any international itinerary, and early this year Rodrigues will be touring the United States with Mota. Pater Margasak (Down Beat)
Leading-edge musicians have been releasing recordings of their own work for decades to overcome commercial labels’ resistance. Some have documented an individual artist’s work, while others, like Evan Parker’s psi and Gino Robair’s Rastascan, expanded to take in other artists. Few have grown at the rate of Creative Sources, the Lisbon label launched in 2001 by violinist/violist Ernesto Rodrigues, a producer as intrepid as Portuguese seafarers in the age of exploration. The label that began modestly enough documenting Rodrigues’ own work now includes artists from around the world and has just released the 178th title in its catalogue.
Rodrigues’ story of his musical coming of age is not an unusual one. First influenced by his father’s taste in music, Rodrigues had his first music lessons with the composer Wenceslau Pinto, godfather of his father. By his teens, in the ‘70s, he was playing with singers - José Afonso, Fausto and Jorge Palma - leading figures in Portugal’s increasingly political music.
Drawn to experimental forms, he moved rapidly through groups and styles with a small but devoted coterie of Lisbon musicians: “My first improvisation group was an acoustic trio with Carlos Bechegas on reeds and Jorge Valente on piano. It was close to AACM aesthetics and I was very influenced by Leroy Jenkins; then came a trio with Bechegas and the singer Ines Martins and later a trio called Fromage Digital with José Oliveira on percussion and Valente on synth.” The fourth formation, a trio with Bechegas and Oliveira called IK*Zs, was the first to record, in 1995, appearing on Bechegas’ Projects (LeoLab). Rodrigues’ next appearance on CD was a duo with Valente released in 1999 as Self Eater and Drinker. Like many before him, Rodrigues bridled at the few opportunities to record. 2000 was the turning point, “Before 2000, there were a few people working but production costs were too high for CD release.”
It was then that Creative Sources began to take shape. In 1999 he recorded a series of improvisations called Multiples with his 11-year old son Guilherme playing cello and Oliveira playing percussion and acoustic guitar. Dedicated to the late John Stevens, Multiples documents Rodrigues’ interest in English- style free improvisation just before a significant shift in his work. When he couldn’t find a label to release it, it became the motivating factor in the birth of Creative Sources and its first CD.
A glance at the early releases suggests a modest intent: the first three discs all feature Rodrigues and Oliveira with a third player. While the CDs trace a sharp creative arc, it’s a modest effort to document closely the work of Rodrigues and his immediate associates: “I was concerned with documentation and possible self-promotion, but it was an ancient and powerful dream of mine to have a music label...”
From the start, the label had a distinctive visual identity, with the electronic musician Carlos Santos providing striking covers that often transform quotidian reality, words and shapes bending as if plastic. According to Rodrigues, “My relationship with Carlos has been going on for a long time and he works as a graphic designer. There’s a close proximity in aesthetics whether it’s label imagery or as a musical partner. I think he’s the perfect partner.”
The label soon expanded, welcoming musicians from around Europe, before moving on to Asia, America and the Middle East (there’s a special Lebanon connection). The first steps were small ones. The sixth release, Ura, recorded Alfredo Costa Monteiro, a Portuguese accordionist living in Barcelona, “but it really took off on the ninth production [No Furniture] with the Berlin trio with Axel Dörner and from there...it’s a small world. Musicians start to identify themselves with the label and then somehow it exploded. People from everywhere shared the same aesthetics.”
The aesthetic is clearly free improvisation, but it ranges from free jazz to the micro-explorations of English free improvisation, minimalism and EAI (electro-acoustic improvisation) that consistently blurs the identity of its sound sources. As the label rapidly expanded, its catalogue became a travelogue of international improvisation as well as an intimate family history of a small group of improvisers. It’s those two facets that give Creative Sources its special identity.
Rodrigues and Guilherme have traveled both literally and figuratively encountering different styles of improvisers at home and abroad. Among the highlights of their own recordings are Poetics, where they join the 18 members of the Glasgow Improvisers Orchestra; On Twrf Neus Ciglau, they’re at home in Lisbon to play with Carlos Santos and two very special guests, Welsh harpist Rhodri Davies and French soprano saxophonist Stéphane Rives. Another Lisbon recording, The Construction of Fear, has Rodrigues and Guilherme in free jazz terrain with the Brazilian tenor saxophonist Alipio C. Neto, Texas trumpeter Dennis Gonzalez and London drummer Mark Sanders. Perhaps Rodrigues’ greatest achievement is Stills, an ambitious recording that marked the label’s 100th release. It’s a three-CD set by the Variable Geometry Orchestra, a large ensemble of Lisbon improvisers: “It all started in 2000, bit by bit. I had a dream from my youth of having something similar to JCOA and Globe Unity Orchestra. It’s the first and only orchestra of this kind in Portugal and the triple CD is the necessary document.”
Trumpeter Nate Wooley is one of the American musicians who has appeared in the Creative Sources fold, releasing his first solo CD, Wrong Shape To Be a Story Teller in 2005 and a duo with guitarist Chris Forsyth, The Duchess of Oysterville, in 2007. For Wooley the label has been both an outlet and a source for otherwise unavailable music: Wooley is quick to point out Creative Sources’ track record with trumpeters, citing figures from the veteran Portuguese Sei Miguel to Argentinian Leonel Kaplan and the young Chicagoan Jacob Wick: “These are three players that are finally starting to get some recognition, but I still think some of their most interesting works were these early experiments that Ernesto took a chance on.” You can add Peter Evans and three intrepid Europeans: Axel Dörner, Franz Hautzinger and Birgit Ulher.
Gino Robair remarks, “I like the fact that Creative Sources lets the artist have total say over the details of a release, which isn’t always the case.” That’s likely why the Creative Sources catalogue includes some of the world’s most accomplished improvisers, like Backchats by Speakeasy, a group that pairs the singers Phil Minton and Ute Wasserman. There’s also the first session by Tom Djll’s Oakland project Grosse Abfahrt, called Erstes Luftschiff Zu Kalifornien. The catalogue includes other first-rank improvisers like reed players Xavier Charles, Bertrand Denzler, Jean-Luc Guionnet, Stefan Keune and Martin Kuchen and the guitarists David Stackenäs and Hans Tammen.
Rodrigues shows no signs of letting up. In the works are a recording by Swiss saxophonist Urs Leimgruber’s trio and Rodrigues’ own Suspensão, “an EAI octet dealing with silence, space and textures.” As with previous Creative Sources projects, they promise to be deeply personal adventures in fresh terrain. Stuart Broomer (AllAboutJazz-NewYork)
[…] O permanente cruzamento, trânsito e diluição de fronteiras entre o jazz e outros domínios e estilos musicais foi ao longo da década particularmente evidente entre os domínios do jazz e da *música improvisada (MI). Neste período proliferaram inúmeras formações (de constituição variável e frequentemente de duração efémera) que juntavam músicos com formação musical diversificada, desde o percurso de aprendizagem em escolas de jazz ou de *música erudita, até à formação autodidacta. A Variable Geometry Orchestra (VGO, fundada em 2000 pelo violinista e violetista Ernesto Rodrigues) constitui provavelmente o melhor paradigma desta tendência […]
De facto, uma parte substancial das actividades em torno da MI centrou-se precisamente em torno das actividades das editoras, com especial destaque para a CS, cujo catálogo de fonogramas de músicos portugueses, estrangeiros, e de colaborações entre músicos de várias nacionalidades atingia quase as duas centenas em 2010, o que proporcionou alguma visibilidade internacional. Revelando uma tendência do
mercado comum ao sector do jazz, o sucesso e a longevidade desta editora deveu-se não apenas a uma estratégia editorial claramente definida por parte do seu fundador, como também à contribuição monetária dos músicos para a edição dos seus próprios fonogramas. Também no domínio da MI o crescimento exponencial de músicos e da oferta musical não foi necessariamente acompanhado pelo crescimento de consumidores e de editores dispostos a investirem, fazendo com que o mercado se reorientasse grosso modo para o fenómeno daquilo que na prática funciona como autoedição, apesar de mediada pelo editor. Além da publicação de fonogramas, a CS e
Ernesto Rodrigues dinamizaram o circuito da música improvisada através da criação de inúmeras formações musicais com constituições bastante diversificadas, organização de concertos avulsos, e a criação de um festival anual (Creative Sources Fest, desde 2007). […] Pedro Roxo (Enciclopédia da Música em Portugal no Século XX)
A fully improvised set with two clever explorers of their very own instruments, Portuguese violinist Ernesto Rodrigues and French sax player Heddy Boubaker were both very competent on their dialogue.
This could actually have been their major sin. Players got truly involved in the ‘conversation’ and there were no place for big risk. Music was there, with adventurous sonic explorations and innovative aural stimulus for curious ears. But in a duo context, free music gets in a upper level when players can ask hard questions or take action into provocative ideas.
At the end, we can say that last night was a good beginning for MUSICAM, an audacious new event in a beautiful city like Abrantes, not really used to free improvisation, jazz or new music.
We strongly believe that the first two cagean minutes of Ernesto and Heddy worked as an initiation ritual for many more great nights in Abrantes. António Matos Silva (Fixwhatusee)
Fundada em 2001, a label lusa Creative Sources já editou até ao momento quase duzentos discos. Movimentando-se no panorama pouco mediático das músicas improvisadas, a editora liderada por Ernesto Rodrigues tem realizado um notável trabalho que, apesar de escondido do mainstream, se revela importantíssimo. Se poderemos dizer que a Clean Feed é uma das melhores editoras de jazz do mundo, neste momento a Creative Sources será sem sombra de dúvida um dos epicentros globais da música improvisada. Especialmente associada à estética reducionista, também conhecida por “near silence” ou “lowercase”, a editora afirmou-se líder nessa corrente, mas não se limita a uma estética única, explorando outros universos sonoros, sempre privilegiando o detalhe e o pormenor sonoro. O patrão da editora, Ernesto, continua a alimentar na qualidade de violista uma intensa actividade musical, contribuindo para o crescimento do catálogo de forma permanente, participando em boa parte dos discos do catálogo. Funcionando como complemento actualizado a umprimeiro artigo-síntese, os discos agora analisados são apenas uma amostra do fervor criativo de uma editora que não pára de surpreender pela originalidade, qualidade e consistência. Nuno Catarino (Bodyspace)
O violetista Emesto Rodrigues tem três novos registos da sua intensa actividade, como habitualmente em conjunção com musicos de outras paragens (os suecos Martin Kuchen e David Stackenas em "Vinter" e "Wounds of Light", respectivamente, e o alemão TonArt Ensemble em "Murmurios") e com três dos seus mais habituais parceiros portugueses (o seu fiIho Guilherme, Carlos Santos e Nuno Torres). Todos as seus conteudos foram integralmente improvisados e todos explicitam o estadio actual da chamada corrente reducionista, aquela que no dominio da musica improvisada vem seguindo o mesmo objectivo de retirada de materiais sonoros e de redução do volume que testemunhamos em outras areas musicais, incluindo o jazz "mainstream". Curiosamente, quando tocam dentro dos parametros convencionais desse mesmo jazz. já Kuchen (Iider do grupo Angles, editado pela alfacinha Clean Feed) e Stackenas (que toca habitualmente com Mats Gustafsson, saxofonista que ja tivemos entre nós varias vezes) não seguem esses parametros...
Sobretudo, o que Emesto Rodrigues e demais improvisadores reducionistas vêm fazendo é operar um corte com a tradicao romântica vinda do seculo XIX em termos da expressao, e que tanlo influenciou o jazz como ate a "old school" da improvisação livre. O expressionismo e os "sheets of sound" que caracterizaram Charlie Parker, John Coltrane, Sonny Rollins e Albert Ayler, e também Evan Parker, John Zorn, Daunik Lazro e Frank Gratkowski, sao uma decorrencia directa dessa matriz romântica, permitindo tal distanciamento a criação de uma musica que troca o fraseado pelas texturas e a escala pelo som, mesmo o considerado como nao-musical. Emesto justifica do seguinte modo este outro caminho que esta a percorrer: «Há formas mais subtis, eficazes e condizentes com o panorama actual do mundo. Vivemos numa epoca de turbulência, em crise de valores e até de identidade. Cabe a arte contrapor-se à pobre realidade a que estamos sujeitos. Na musica,
o uso de microtonalismos, elementos psico-acusticos, "drones" e rugosidades sao fenomenologicamete mais apropriados para o conseguir. Estes atributos podem conferir um lado mais telurico ou mais escatologico. e eu gosto disso." O também responsável pela etiqueta Creative Sources é claramente o produto da matriz cruzada - com elementos do jazz e da musica erudita - de onde emergiram as praticas europeias da improvisação. No seu caso particular, parte dos postulados do serialismo e do pós-serialismo avançados par Webern e do free jazz segundo a especial perspectiva do violinista Leroy Jenkins com o Revolutionary Ensemble. "As miniaturas webernianas foram-me determinantes para a aproximação do silencio, a economia dos elementos e a extrema concentração da musica que pratico", diz_ Emesto Rodrigues já esteve mais proximo da "new thing" do que na actualidade: "0 presente revivalismo do free jazz era previsível. Na altura em que surgiu, esta tendencia era, sem duvida, arrojada, mas hoje nao tem a mesma carga politica e social. Foi "domada" e "civilizada", sendo mais facil de tolerar pela sociedade de consumo, Natural sera que haja uma aproximação entre a musica improvisada e a musica erudita contemporanea. As fronteiras entre ambas estão a diluir-se e ha cada vez mais permutas entre os dois universos, pelo que se explica o afastamento do jazz por parte de abordagens da improvisação como a minha. Depois do free jazz temos a free music, que engloba algumas das expressões libertarias reclamadas por aquela corrente do jazz e algumas das concepções subjacentes a musica dita "seria" e ainda a acusmatica, ao espectralismo, ao concretismo, a "laptop music"…». A primeira das verificações derivadas da audição destes tres discos e a diferente gestao do factor "near silence" que vem definindo esta corrente da musica improvisada. O TonArt Ensemble pode estar nos antipodas da estetica do grito de um Peter Brotzmann, mas os "murmurios" anunciados pelo titulo do CD sao profusos, agitados e inquietos. Quando, em "Vinter", Martin Kuchen introduz repetições rítmicas na trama, esta a distanciar-se umas boas milhas dos ultra-minimalistas conceitos de Radu Malfatti e Taku Sugimoto. Por sua vez, "Wounds of light" tem em David Stackenas o "joker" com a missao de manter instaveis os equillbrios que se vao construindo, abrindo feridas na superfície do silencio e lançando sombras sobre o que se ilumina. Em todas estas edições, o proprio Ernesto - considerado um dos principais "chefes de fila" do reducionismo internacional -multiplica-se em gestualismos, num frenesim que, incrivelmente, nunca deixa de ser subtil. Na sua batalha contra os resquicios do Romantismo, sO se alterou a esse nível o fascinio do musico de Lisboa pelo dito silencio: «Dizem-me muito os compositores que sabem privilegiar esse factor tão precioso, o silencio anunciado por John Cage tem hoje. finalmente. a importancia que nunca antes Ihe foi conlerida, São eles Helmut Lachenmann, Salvatore Sciarrino, Gerhard Stabler, Gerard Grisey, Toshio Hosokawa, Vadim Karassikov, lancu Dumiirescu e Wolfgang Rihm, para so citar alguns. E Emmanuel Nunes. Tem sido um enorme privilegio poder disfrutar, nos "workshops" que realiza, de todas as suas sagacidade, argucia e mestria. A sua obra e um testemunho vivo da busca permanente de novas soluções e respostas em materias como o contraponto e a especialização. Com uma destreza notavel no dominio de abstracções tão exactas como as matematicas, e frequentemente rotulado como demasiado frio, mental ou rigido - epitetos com os quais estou totalmente em desacordo. No fim de um concerto meu nos Instants Chavires, alguem do publico perguntou-me se a peça que tinhamos acabado de tocar era da minha autoria ou se teriamos interpretado uma obra de Nunes… Respondi-Ihe que tudo tinha sido improvisado. Ao longo dos anos, talvez tenha assimilado e interiorizado inconscientemente algumas das caracteristicas que melhor definem o estilo do compositor".
O que resta, então, da influencia de Leroy Jenkins nas três mais recentes propostas discograficas de Ernesto Rodrigues? Aquilo que o falecido violinista norte-americano legou de mais essencial aos que ficaram: a constante busca de novas soluções e possibilidades, mas também, o que nao e menos importante, a atitude de abertura que permite nunca tornar a que se descobre ou obtem num dogma. Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)
Violetista e violinista com actividade nas areas do free jazz e da livre-improvisação desde a decada de 1980, tocou ou toca com musicos como Carlos Bechegas, Jose Oliveira, Manuel Mota, Marco Franco, Alfredo Costa Monteiro, Margarida Garcia, Carlos Santos, Nuno Torres, Pedro Rebelo, Michael Thieke, Christine Sehnaoui, Oren Marshall, Tetuzi Akiyama, Wade Matthews, Alessandro Bosetti, Birgit Ulher, Mark Sanders, Jean-Luc Guionnet, Seijiro Murayama, Raymond MacDonald, Rhodri Davies, Martin Kuchen, Gino Robair e David Stackenas, entre outros. Em paralelo, dirige a etiqueta Creative Sources, actualmente com mais de uma centena de CDs editados, e organiza eventos musicais, entre os quais o Creative Sources Fest. Estes sao as seus discos preferidos de sempre…
Eric Dolphy “Out To Lunch” Blue Note, 1964; Albert Ayler “Bells” ESP Disk, 1965; Ornette Coleman “Chappaqua Suite” CBS, 1966; AMM “AMM Music” Elektra, 1967; John Coltrane “Om” Impulse!, 1967; The Jazz Composer's Orchestra “The Jazz Composer's Orchestra” JCOA Records, 1968; Peter Brötzmann Octet “Machine Gun” BRÖ, 1968; Maurice McIntyre “Humility In The Light Of Creator” Delmark, 1969; Alan Silva “Skillfullness” ESP Disk, 1969; New Phonic Art “Begegnung In Baden--Baden” Wergo, 1971; Sun Ra And His Intergalactic Research Arkestra “It's After The End Of The World -Live At The Donaueschingen And Berlin Festivals” MPS Records, 1972; Don Cherry & The Jazz Composer's Orchestra “Relativity Suite” JCOA Records, 1973; David Holland Quartet “Conference Of The Birds” ECM Records, 1973; Creative Construction Company “Creative Construction Company” Muse Records, 1975; Derek Bailey “Improvisation” Cramps Records, 1975; Gruppo Di Improvvisazione Nuova Consonanza “Musica Su Schemi” Cramps Records, 1976; Revolutionary Ensemble “Revolutionary Ensemble” Enja, 1977; Anthony Braxton “The Montreux / Berlin Concert” Arista, 1977; Cecil Taylor “Cecil Taylor Unit” New World Records, 1978; Evan Parker “Monoceros” Incus Records, 1978; MEV “United Patchwork” Horo Records, 1978; The Art Ensemble Of Chicago “Nice Guys” ECM Records, 1979; Globe Unity “Compositions” Japo Records, 1980; Wolfgang Fuchs / Georg Katzer “FinkFarker” FMP, 1990; The Sealed Knot “Untitled” Confront, 2000; Axel Dörner “Trumpet” A Bruit Secret, 2001; Jean -Luc Guionnet “Pentes” A Bruit Secret, 2002; Yoshimitsu Ichiraku / Kazushige Kinoshita / Taku Unami “Cymbal Violin Lapsteel” Hibari Music, 2002; Stéphane Rives “Fibres” Potlatch, 2003; Radu Malfatti "Wechseljahre Einer Hyäne” B-Boim, 2007 Rui Eduardo Paes (Jazz.pt)
O mais recente número da mais famosa revista de jazz do mundo traz um artigo sobre o improvisador português Ernesto Rodrigues. O interessante artigo é da autoria de Peter Margasak e foca as actividades do músico e da sua editora, Creative Sources. Neste momento Ernesto Rodrigues encontra-se nos Estados Unidos, país que vai percorrer em concertos durante o próximo mês, na companhia do guitarrista Manuel Mota. Parabéns, Ernesto! Nuno Catarino (aformadojazz)
Oito improvisadores em torno do silêncio. Ou por dentro e fora dele, se preferirem. "Suspensão", nome do espectáculo a apresentar esta noite na Galeria Zé dos Bois, reúne um octeto que desenvolve uma exploração minuciosa dos timbres de cada instrumento, contrapondo-a à total ausência de som. Um exuberante universo de micro-texturas sonoras relaciona-se intensamente com o espaço envolvente e cria uma dinâmica na qual o silêncio tem um papel determinante. Próxima de uma estética a que se convencionou chamar de reducionista ou near-silence, esta é uma música de câmara exigente que poderá tirar partido do enorme talento dos improvisadores convocados para este encontro: Ernesto Rodrigues na viola e harpa, Guilherme Rodrigues no violoncelo, Abdul Moimeme na guitarra eléctrica, Gil Gonçalves na tuba, Nuno Torres no saxofone alto, Armando Pereira no acordeão e piano de brincar, Carlos Santos na electrónica e José Oliveira na percussão. Fundador da editora Creative Sources e um dos mais activos improvisadores nacionais, Ernesto Rodrigues prossegue um trabalho notável e crucial no desvendar de novos universos musicais. Rodrigo Amado (Público)
O violino já faz parte da vida de Ernesto Rodrigues há mais de trinta anos. Compositor, violetista e violinista, Ernesto Rodrigues já trabalhou com nomes reconhecidos nacional e internacionalmente, tais como Carlos Zíngaro, Evan Parker,Phil Niblock, Iannis Xenakis.
Desta feita, veio apresentar ao público o seu último trabalho, desenvolvido em conjunto com mais sete artistas: Abdul Moimemme (guitarra), Armando Pereira(acordeão e piano de brincar), Carlos Santos (electrónica), Gil Gonçalves (tuba),Guilherme Rodrigues (violoncelo), José Oliveira (percussão), Nuno Torres(saxofone). Suspensão é o nome da obra destes oito artistas, estreada na sexta-feira (dia 11) na Galeria Zé dos Bois.
Não foram muitos os que se dirigiram para o Bairro Alto numa sexta-feira de chuva. Porém, a plateia que assistiu à estreia do Octeto de Ernesto Rodrigues estava razoavelmente composta. Não é difícil compreender o seu porquê. Ernesto Rodriguesé um dos nomes de relevo no seio do jazz nacional. Adepto de improvisos, divagações libertinas e de particularidades sonoras que evocam logo o “free”, este trabalho não fugiu à regra que caracteriza a carreira do músico. Todavia, este projecto de oito músicos tem uma marca que se distingue. De carácter reducionista, uma aproximação do silêncio, uma procura ininterrupta do silêncio como forma de expressão.
Foi com base no silêncio – tanto como caminho, como objectivo – que cerca de uma hora de música se desenrodilhou. Não é fácil evocar o silêncio com mais de dez instrumentos em palco, uma plateia um tanto agitada e uma sexta-feira à noite no Bairro Alto. Se Ernesto Rodrigues fazia ouvir uma harpa tácita e Nuno Torres nos brindava com um saxofone que caminhava pela mudez, logo de seguida Gil Gonçalves soltava um som destemido de tuba que destruía de imediato a camada silenciosa que se propagava pela sala. A brincadeira esquemática – silêncio, não silêncio – foi o fruto da noite.
Sem paragens, os músicos desenvolviam momentos de maior tensão, em que a tuba, electrónica, percussão, violino e piano de brincar se faziam ouvir com maior energia, para logo de seguida se deixarem levar por uma onda sonora amena, apenas interrompida pelas vozes que se adivinhavam vindas das ruas bairristas.
Entre os músicos que davam o seu contributo individual (e simultaneamente colectivo) para que a música se fizesse ouvir, Guilherme Rodrigues seguia os passos do pai, Ernesto Rodrigues, que, em certa medida, o encaminhou no seu contributo. Alguma prematuridade esteve muito presente na interpretação de violoncelo deGuilherme Rodrigues. Contudo, é importante frisar a jovem carreira do violoncelista, principalmente em comparação com a carreira dos músicos que se encontravam em palco.
Se algo faltou, então foi a ligação entre os intérpretes. Claramente, é difícil que exista uma relação intensa entre oito músicos em palco. Se Ernesto Rodriguestrocava expressões com o seu filho e Gil Gonçalves compartilhava devaneios tubísticos com o percussionista José Oliveira, poucos momentos mais de partilha se viram e escutaram na actuação. Permanece a dúvida sobre se o desfasamento entre os músicos seria por ser uma estreia e, portanto, o projecto estar pouco desenvolvido nos parâmetros do desempenho ao vivo ou se a individualidade é pressuposta.
Em suma, a noite ficou marcada por uma experiência “near silence”. Afinal, o silêncio pode ser entendido nas mais diferenciadas dosagens e formas, pode ser vítima de diversas interpretações e relações. Foi a experiência do silêncio que deu azo a um exercício de criatividade feito por esta Suspensão de oito intérpretes distintos. Regina Morais
O regresso ao prazer das novas músicas...em tempos também Orquestra Vermelha, "Self Eater and Drinker" apresenta-nos Ernesto Rodrigues & Jorge Valente, em 1999 e em nome próprio. Tudo isto é muito estranho. Belíssimamente estranho. Confesso que é um universo pouco habitual nos meus roteiros sonoros mas que pouco a pouco, vou descobrindo, sentindo, tentando perceber. É um universo tão escondido, ignorado, mesmo desconhecido e que no entanto, tem tantos lusos alvo de reconhecimento por esses quatro cantos fora. Refiro-me ao mundo do experimentalismo contemporâneo, ao mundo do improviso e refiro-me aos casos de Carlos Zíngaro, Rafael Toral, Carlos Bechegas, Nuno Rebelo ou mesmo Sei Miguel, Jorge Lima Barreto ou Vitor Rua, entre os que aqui hoje refiro, obviamente. Este é o incrível mundo do improviso...da paixão pelo som e por aquilo que este nos pode devolver. Use-se o que se usar, como se usar. E esta é uma suite em oito partes dedicada a Martin Kippenberger, na qual Ernesto Rodrigues (violino, violino preparado e processador de sinal) e Jorge Valente (sintetizador e computador) improvisam, criando um diálogo muito pessoal entre um violinista e um teclista, entre duas formas de vibrar um instrumento...mas claro que é muito muito mais do que isto [...] Rui Dinis ( A Trompa)
Five releases that feature Ernesto Rodrigues, recorded between 1999 and 2010 in various settings. Rodrigues has been heard on many, many discs, enough that I wouldn't presume to use these examples of anything definitive regarding a partial career arc, but in very general terms, they might be seen as limning some parts of a pathway. He's always, from what I've heard anyway, trod a line between (for lack of better shorthand) efi and eai, gradually casting aside some of the busier aspects of the former, but never entirely jettisoning that particular approach to group interplay. Brian Olewnick (Just Outside)
Since first encountering the music of the Iberian improvisers, I guess more than ten years ago now, I've been impressed by the territory they (speaking generally) carved out for themselves, distinct in a number of ways from the improv being practiced elsewhere. As they, inevitably, began to mingle more and more with other European, Asian and American musicians, the music widened in many respects, perhaps lost some idiosyncrasy in others. But here, as elsewhere, it's heartening not to hear complacency, to continue to hear the searching, often along that difficult, slippery and occasionally very rewarding path between efi and eai. Brian Olewnick (Just Outside)
[...] De perna cruzada, como se estivesse a beber uma cerveja na esplanada, Ernesto Rodrigues procurou reações em todos os lugares possíveis e impossíveis do seu instrumento. Quem disse que questionar os limites é uma luta contra o suor? [...] Rui Eduardo Paes (Bitaites)
Ernesto Rodrigues e Carlos Santos exploram conceitos da improvisação electro-acústica, de cariz marcadamente reducionista.
Um duo formado por violino/harpa e um dispositivo electro-acústico conhecido por criar atmosferas intimistas, atento aos detalhes das texturas e sons, onde o silêncio e a arquitectura sonora são dois importantes factores para o jogos entre os materiais acústicos e electrónicos. ZDB
[...] No caso do Ernesto Rodrigues, que vai tocar também com um quinteto, entram dois improvisadores estrangeiros, o Rhodri Davies, que toca harpa eléctrica e é um dos grandes improvisadores europeus, e também o Stéphane Rives, que é um saxofonista especialista na corrente musical chamada de near silence, que trabalha todo o tipo de sons não convencionais que se podem tirar do instrumento, um trabalho muito microtonal. CCB
O Lumpen Trio é uma formação que se dedica à improvisação livre entendida como gestão de acasos e criação de acidentes onde o esquecimento, a emoção, a intensidade, aliados a um espírito lúdico e despreocupado, têm uma função estruturante e dinamizadora.
Criado em 2001 por António Chaparreiro, Jorge Serigado e Ernesto Rodrigues, tem mantido uma actividade vocacionada essencialmente para actuações ao vivo e cujos registos têm sido particularmente bem recebidos pela crítica.
[...] Da estética "near-silence" partiram igualmente os Rodrigues pai e filho, respectivamente em viola e violoncelo, e a contrabaixista italiana, mas radicada em Ponta Delgada, Gianna de Toni, se bem que evoluindo para situações conotáveis com a música contemporânea, aqui ou ali evocando um Salvatore Sciarrino e um Helmut Lachenmann. Abordagens extravagantes das cordas e das madeiras dos instrumentos, com os arcos, os dedos ou objectos vários, expandiram as possibilidades de execução, e nada foi excluído das lógicas aplicadas – em meio ao abstraccionismo geral, uma micromelodia em repetição ganhou especial efeito, denotando um sentido de oportunidade e uma inteligência construtiva admiráveis. [...] Rui Eduardo Paes
Creative Sources a acquis la réputation de livrer à nos oreilles une avalanche d'enregistrements "radicaux" d'improvisation rédutionniste- expérimentale. On a découvert Bertrand Gauguet, Mazen Kerbaj, Birgit Uhler, Ruth Barberan, Jean-Luc Guionnet. Jason Kahn, Leonel Kaplan, Sharif Sehnaoui, Wade Matthews et Ernesto Rodrigues, bien sûr, ... etc etc ... et aussi des artistes tout à fait méonnus. Dans la masse, on avait l'impression que les perles étaient un peu noyées. Plus récemment, un quartet de Phil Minlon, Thomas Lehn, Ute Wassermann ct Martin Blume nous donnait à entendre de l'impro libre "traditionnelle" (si je peux m'exprimer ainsi).
Il semblerail que cette tradition revient en force dans le catalogue CS. On se croirait chez Emancm ou FMP. Jean-Michel van Schouwbourg
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